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Texto Crítico | Exposição Cícero Dias no CCBB

A exposição de Cícero Dias no CCBB reúne 125 obras de diversas fases do artista pernambucano que exemplificam sua trajetória no Brasil, mas também as influências da vida no exterior, no período de guerra e pós-guerra. Com curadoria de Denise Mattar e Sylvia Dias Dautrsme, filha do artista, como co-curadora; as obras escolhidas estão expostas de tal forma que fazem com que a sensibilidade e poesia de Cícero transpareçam para o espectador, algo que intensifica seu ‘Percurso Poético’.

A exposição está dividida em três núcleos: Brasil, Europa e Paris que por sua vez são divididos em sub categorias, fazendo com que a mostra seja composta de dez grupos. Cada um destes segmentos da exposição se complementam e se relacionam, mostrando assim a trajetória de Cícero como artista em seus diversos momentos de criação e contexto histórico. Além de obras, a exposição conta com cartas, fotografias e textos que evidenciam sua participação no circuito de arte europeu e sua relevância e amizade com personalidades como Pablo Picasso, Mário de Andrade e Paul Éduard.

O primeiro conjunto de obras faz parte do grupo “Entre Sonhos e Desejos” que reúne aquarelas produzidas na década de 20 e retratam a memória do engenho de Jundiá onde nasceu e a energia do Rio de Janeiro onde vivia na época. Seu trabalho é carregado de uma espontaneidade cuja obra se destacava e diferenciava ao lado dos trabalhos de Tarsila do Amaral e Di Cavalcante. Segundo Mário de Andrade, “os desenhos dele formam um outro mundo”. Obras como “Bagunça”, “Cena Imaginária com Pão de Açúcar” e “Cabra-Cega”, expostas no CCBB, nos permite transitar para um mundo unicamente pertencente ao artista.

Em 1931 a obra “Eu vi o mundo… ele começa no Recife”, um painel em aquarela com 15 metros, foi exposto no Salão Revolucionário da Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Esta obra, que no CCBB é exposta por meio de um vídeo, é composta de imagens do cordel, de Jundiá onde nasceu, lembranças amorosas e cenas eróticas. A intensidade de seu pensamento foi tão avassaladora que abalou as normas da época e levou Lucio Costa, então organizador do Salão, a ser despedido e Mário de Andrade a comentar que Cícero estava “fazendo rachar as paredes da Academia” em uma carta à Tarsila.


Crédito: InfoArtSP. Obra "O Sonho", Aqualrela sob papel, 1931.

O segundo grupo de obras é parte de “Memórias de Engenho” e ressalta uma primeira mudança no estilo de produção. As obras feitas ente 1930 e 1939 são pintadas em tinta a óleo e a mudança em medium retratam também uma mudança em tema. Seus trabalhos são voltados à lembranças do engenho de Jundiá e carregam em si um tom mais serene, uma composição mais estática e seu realismo mágico manifesta-se por meio de narrativas que misturam vivos e mortos nas casas escuras da fazenda com cor e vida do lado de fora. Nesta parte da mostra, está inclusa a obra “As Primeiras Notas”, considerada a primeira pintura de Cícero, feita por ele em 1918 quando tinha apenas 18 anos, mas que conversa perfeitamente com obras da década de 30, como “Autorretrato na Biblioteca”.

“E O Mundo Começava em Recife” é o último dos grupos que compõem o núcleo “Brasil” da exposição. Consiste de grupo de obras que tem produção simultânea com “Memórias de Engenho”, mas são separadas pois retratam suas recordações urbanas da vida na capital pernambucana. Seus trabalhos retratam diferentes olhares sobre o mesmo tempo;em obras como “Sonoridade na Gamboa” e “Gamboa do Carmo” em que a intimidade, erotismo e vida no Recife são opostamente complementadas.


Crédito: InfoArtSP. Obra "Gamboa do Carmo no Recife", Óleo sobre tela, 1929.

Sua chegada na Europa é marcada em 1937 com pinturas a óleo, construídas mais tradicionalmente, relembrando o engenho, Jundiá e o Brasil. Na cidade europeia, o artista logo expõe seu trabalho e André Salmon faz menção ao poema de Rimbaud, comenta sobre o artista e seu trabalho como esse “selvagem esplendidamente civilizado”. As cores, o destaque a tropicalidade de Cícero na Europa marcam-o mais uma vez como único em seu contexto.

O período de Guerra levou o artista à uma prisão em Baden Baden, Alemanha, onde seus trabalhos foram executados majoritariamente em papel e lápis de cor. Cícero, com influência surrealista e de seu grande amigo Picasso, retratava as atrocidades da guerra por meio de figuras em sofrimento e outros que habitavam a prisão. Em contrapartida, a melancolia e rancor da época se contrastavam com retratos de memórias de sua amada Raymonde. Nesta mostra, estes desenhos estão expostos ao lado de fotografias e cartas que compõem o grupo “Entre Guerra e Amor”.

Após ser solto, Cícero reside em Lisboa com Raymonde e produz obras que segundo Mário Gomes de Lima são “pinturas de transição”. Seu trabalho sofre uma guinada e possuem um tom muito mais irônico e audacioso do que seu trabalho normalmente poético e onírico. “Lisboa - Novos Ares” inclui um conjunto de obras que nunca foram expostos juntos. “Nessa fase, Cícero Dias parece saltar sobre nós, ele nos sacode em telas que fariam inveja aos ‘fauves’, pela audácia e pela novidade das buscas cromáticas, dos traços ousados e dos temas irreverentes, irônicos e provocativos. Títulos ambíguos completam as obras: Mamoeiro ou dançarino?, Galo ou Abacaxi? Ele simplifica o desenho, usa pinceladas brutas, cores inusitadas e estridentes, e tonalidades intensas e brilhantes.”, destaca a curadora.

Seu trabalho continua se transformando e é exemplificado na sessão “A Caminho da Abstração”, também conhecido como fase vegetal. Seu trabalho confunde o geométrico e o orgânico, o abstrato com o figurativo e transmite, como sempre, um ar Brasileiro. Seu trabalho não se encaixa, mais uma vez, nem com a representação explícita nem com a abstração completa do seu tema; o Brasil pode ser visto, sentido e compreendido universalmente por meio destes trabalhos.

Seu trabalho continua seguindo este caminho e chega na “Geometria Sensível” até que em 1948, Cícero volta ao Brasil para pintar murais e é considerado pioneiro deste tipo de pintura na America Latina. Seu trabalho é composto de elementos nitidamente brasileiros, o verde, as curvas, o amarelo, inspirados por viagens que fez ao nordeste nesta época.

Após estes murais, seu trabalho evolui à uma “Abstração Plena”, similar às obras de Kandinsky.  Este período marca seu retorno a Paris, mas seu trabalho ainda remete ao tropical e à intensidade brasileira, porém não se encaixam ao Concretismo daqui. Seu trabalho contém um “frescor espontâneo dos mais originais” disse o crítico Léon Degaud.

Ao mesmo tempo, o artista criou uma série de pinturas classificadas como “Entropias” em que acontece o derretimento do seu geometrismo, onde a tinta escorre e o que é firme se dilui. “Menos do que tachismo, ou abstracionismo informal, as entropias parecem um despudorado mergulho nas possibilidades do uso da tinta; sem retas, sem linhas marcadas, sem nenhum esquema formal a cumprir – o fascínio da liberdade, do deixar-se ir”, afirma Denise Mattar.


Crédito: InfoArtSP. Obra Sem Título, Óleo sobre tela, déc 50. 

Finalmente, seu trabalho volta a retratar a vida no Brasil. “Nostalgias” é a última transformação do seu trabalho, onde todas as suas experimentações de cor, forma, movimento, figuração e abstração se reúnem para criar novamente cenas de Pernambuco. A diferença, é que estas novas cenas contém toda a sabedoria artística acumulada ao longo dos anos e fases; estas pinturas fecham um ciclo de produção com clareza, eloquência e técnica.

Texto por Giovanna Fava Mitrani

Saiba mais sobre a exposição aqui.