Notícias

Voltar

O Feminino na SP-Arte

Considerada uma das mais importantes feiras de arte contemporânea no mundo, a 13a edição da SP-Arte contou com a participação de renomadas galerias, artistas nacionais e internacionais e eventos que enriquecem o cenário cultural. De suma importância para a divulgação e promoção da cultura atualmente, um viés interessante para desfrutar da feira é por meio das obras de artistas mulheres, uma trajetória que expõe questões do universo feminino no contexto contemporâneo, um assunto extremamente pertinente nas discussões culturais atualmente. 

Tanto cultural como socialmente, o olhar da mulher ganha cada vez mais espaço e voz ativa, inclusive na SP-Arte, o que faz com que a feira, cumprindo seu dever de órgão cultural, viabilize espaço para discussões e reflexões do mundo atual. 

Pioneira na criação de arte abertamente política e feminista na Croácia, obras de Sanja Iveković questionam os abusos sofridos por mulheres. As imagens apresentam figuras femininas presentes em anúncios publicitários, bonitas, empodeiradas e aparentemente bem, mas que são contrapostas com relatos de abusos e imediatamente rompem com a força da mulher. A similaridade da sua estética com a de Barbara Kruger ressalta a natureza crítica sobre construções culturais de poder, identidade e sexualidade. Uma série de seus desenhos, ‘Divorced’ (1981), expostos também na feira, retratam a mulher fragmentada em seu encontro e relação com a figura masculina e levantam questões sobre o psicológico feminino, o que é ser mulher e se sentir completa.


Sanja Iveković, ‘Women’s House’, 2002-09 

Similarmente, a artista portuguesa Helena Almeida trabalha com questões acerca do espaço físico mas também psicológico. Ao planejar suas obras fotográficas por meio de desenhos, o resultado final captado pela camera são composições onde a artista representa suas aflições, seu corpo e seu espaço. Na obra em que a artista tem sua perna amarrada à de seu marido com arame farpado, a liberdade e bem estar da mulher são postos à prova. A artista faz com que seu público reflita sobre a fragilidade e propriedade do corpo no contexto contemporâneo.


Helena Almeida, ‘Sem Título’ , 2010 | Helena Almeida, ‘Desenho’, 2012

As obras de Renate Bertlmann também tem como protagonista representativo a própria artista, que emprega o corpo como meio artístico. Sua obra Urvagina (1978), exposta na SP-Arte, faz menção ao papel da mulher na sociedade e sua relação com a pele, o outro, a fertilidade e a criatividade. A série de fotografias causam um desconforto no espectador, que se encanta e é repulso pelas modificações feitas em seu corpo por meio de esculturas em látex. O conceito de sua arte é aliado à obra final por serem uma série de fotografias e esculturas que evidenciam as transformações no corpo feminino, a criatividade da artista mulher e a sua capacidade de se apropriar das suas dificuldades, percepções sensoriais e psicológicas e transformá-las em arte extremamente forte. 

O desconforto no espectador e o uso do corpo também são características da polonesa Joanna Piotrowska em sua série de fotografias ‘Frantic’ (2016). A obra é composta por fotografias de diferentes cabanas criadas por adultos em suas próprias casas e habitando aquele espaço. A relação do homem com a adaptação do ambiente familiar e ao novo ambiente são usados para discutir o corpo, o espaço e o sentimento de proteção e acolhimento. Suas obras despertam a fragilidade do adulto, resgatam a infantilidade e referenciam as diferentes representações que cada indivíduo tem à inflexibilidade, desconforto e dificuldade de encontrar e se encaixar em um abrigo verdadeiramente confortável e acolhedor. 

Estas quatro artistas expuseram suas obras internacionalmente na SP-Arte, e a sua relevância e coerência no contexto contemporâneo brasileiro é prova de que as vivências e questões da mulher na arte por todo o mundo dialogam e se ajudam. A presença destas obras e deste tema na SP-Arte permite que a arte e cultura se enriqueça mundialmente ao viabilizar esta troca de arte feminina, que assim ganha cada vez mais voz e devida atenção.

Texto por Giovanna Fava Mitrani