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Museu Nukus: uma coleção de arte proibida

Por Maryella Sobrinho.

Ao longo de décadas, um jovem pintor, arqueólogo e colecionador russo, chamado Igor Savistsky (1915-1984) viajou pelo deserto caracalpaque, visitando casas e ateliês em busca de obras de arte. Tais obras um dia foram renegadas, por não agradarem o sistema político soviético, vigente de 1922 a 1991. Agora, possuindo valor histórico e artístico inquestionável, compõem a Coleção Savitsky, a segunda maior do mundo em arte vanguardista russa (depois do Museu de São Petersburgo), estando abrigada no Museu de Arte do Caracalpaquistão, também conhecido como Museu de Nukus (sua capital).

Nascido em Kiev (Ucrânia) em 1915, em uma família relativamente abastada, Savitsky teve acesso a uma educação de qualidade e conforto razoável, até que sua família tornou-se alvo de perseguição durante a Revolução de Outubro 1 . Após este ocorrido, passou a trabalhar como eletricista, tornando-se um proletário, assim como grande parte dos jovens de sua época.

Foi pela primeira vez para Caracalpaquistão em 1950, integrando a Expedição de Arqueologia e Etnografia Khorezm, liderada por Sergei P. Tolstov. Nos intervalos das escavações, pintava incessantemente. Como artista, buscava exprimir em suas paisagens as inúmeras cores do deserto. Porém, com a crítica negativa recebida na época, desistiu da pintura e da carreira artística. Mas Savitsky não conseguiria ficar longe da arte. Fascinado pela cultura camponesa local, permaneceu na região mesmo após o fim dos trabalhos de escavação em 1957, quando começou a coletar tapetes caracalpaques, trajes tradicionais, jóias e outros artefatos. Ao mesmo tempo, iniciou a coleta de desenhos e pinturas de artistas da escola uzbeque e de russos vanguardistas que as autoridades soviéticas haviam banido nas décadas de 1950 e 60. 

Igor Vitalievich Savitsky, 1915-1984.

Para iniciar sua coleção, Savitsky não tinha dinheiro. Pelo menos, não suficiente para constituir tamanho acervo. Ainda assim, arriscou-se a enganar autoridades para conseguir dinheiro para a compra das peças desejadas. Mesmo sem fundos, realizou muitas viagens pelo deserto caracalpaque, chegando inclusive a visitar Moscou e São Petersburgo, em busca de itens para sua coleção. Com sérios problemas de saúde na década de 80, foi internado em um hospital em Moscou, o que não impediu que continuasse com suas negociações para adquirir mais obras. O colecionador escreve em uma das cartas trocadas com amigos: “Eu viajei por todo o Uzbequistão busca de obras-primas que a nossa história havia condenado à obscuridade. Encontrei todo um coletivo multinacional de artistas. Alguns eram uzbeques, outros vieram de partes distantes da nossa União Soviética. Eles vieram aqui depois da Revolução. Por um breve período de tempo nos anos 20 e 30, eles pintaram livremente, longe da censura do Kremlin. O Uzbequistão tornou-se sua segunda pátria.” Antes de sua morte em 1984, fingiu comprar arte autorizada pela então União Soviética, conseguindo dinheiro para fundar um museu para abrigar sua coleção, usando diversos meios: da amizade à chantagem emocional.

Não seria este um museu localizado em um grande centro cultural, mas em terras áridas da Ásia Central, no Caracalpaquistão, região autônoma no Uzbequistão. Situado em uma das regiões mais pobres do mundo, é pertinente pensarmos sobre a escolha desta localização peculiar para um museu de tamanho porte: " As pessoas, 'Por que fazer este museu em Moscovo?' Mas só lá nas areias do deserto, onde ninguém iria,

A Coleção Hoje
Hoje, a coleção abriga cerca de 90 mil itens, incluindo gravuras, pinturas, esculturas, milhares de artefatos, têxteis e jóias, que vão desde as antiguidades da antiga civilização de Khorezm 2 à obras de artistas uzbeques e caracalpaques contemporâneos. Foi oficialmente reconhecida em 1991, com o fim da URSS, quando Nukus se tornou acessível a jornalistas, artistas e pesquisadores da área, diplomatas, etc. A partir de então, meios de comunicação começaram a contar a curiosa história da coleção, algo que chamou a atenção do mercado de arte. Ainda na direção do Museu há 25 anos, Marinika Babanazarova diversas vezes teve de lidar com burocratas e comerciantes de arte que ambicionam muitas de suas obras. Mas Babanazarova não cede. Para ela, se ela ceder, muitos outros museus cederão e as obras se tornarão dinheiro, deixando de ser um bem cultural: "Museus Russos não podem viver com a idéia de que uma coleção tão maravilhosa era retirada da Rússia e levada a este lugar provincial, em algum lugar no Uzbequistão, Deus sabe onde.", diz Marinika Babanazarova, diretora do Museu. E completa: "O Museu Nukus tem sido o trabalho da minha vida por 25 anos. Eu sou o neta do primeiro presidente do Caracalpaquistão (...) é um país muito pobre e o único tesouro que ele tem agora é este museu."

Uma das galerias do Museu Nukus.

O temor presente na fala de Babanazarova deve-se ao fato da tensão política vivida na região, que antes controlada pela antiga URSS, agora é regularmente influenciada pelas opressões do Estado Islâmico. Embora existam legislações e órgãos protetores que prezam pela proteção da cultura, num momento de tensão política, estes valores são esquecidos e precisamos nos questionar de quem é a responsabilidade de preservar este tesouro cultural. Quando desejava construir seu museu, Savitsky dizia: "Eu gosto de pensar em nosso museu como um guardião das almas dos artistas. Suas obras são a expressão física de uma visão coletiva que não podia ser destruída."

Obs. 1: Em 2010, foi produzido um documentário intitulado O deserto da Arte Proibida (The Desert of Forbidden Art), de Tchavdar Georgiev e Amanda Popov. Durante 80 minutos, filhos de artistas perseguidos pelo regime soviético, narram com delicadeza e emoção as histórias de seus pais, que foram presos, exilados e condenados à morte, por negarem subserviência a esse regime totalitário.

Obs. 2: Para saber mais sobre o museu e sua coleção, acesse http://www.savitskycollection.org/

Referências
ARENDT, Hannah. "O Totalitarismo", In: Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. BARRON, Stephanie (org.). Entartete Kunst: Das Schicksal der Avantgarde im Nazi-Deutschland. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art, 1991. Munique: Deutsches Historisches Museum, 1992. HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução Marcos Santarrita. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
THE DESERT OF FORBIDDEN ART. Dir: Tchavdar Georgiev e Amanda Popov. Eua: 2010. 80 min.

________________________________ Press Kit. Disponível em http://www.desertofforbiddenart.com/about
Acesso em dezembro de 2015.

A colunista:
Maryella Sobrinho é doutoranda em Teoria e História da Arte, na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), com orientação da Profª Drª. Rosângela Miranda Cherem. Atualmente, pesquisa a obra da escultora Cristina Iglesias e suas relações com o espaço paisagístico. É mestre em Teoria e História da Arte pela Universidade de Brasília (UnB), com bolsa CAPES e REUNI, quando estudou a coleção do Banco Central.
Confira sua coluna: O que é um coleção? e Do moderno ao contemporâneo