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MASP anuncia programação de exposições em 2018

Narrativas afro-atlânticas irão permear todas as mostras do ano, que contemplam nomes como Aleijadinho, Sônia Gomes, Melwin Edwards, Maria Auxiliadora da Silva, Rubem Valentim e Pedro Figari.

Maria Auxiliadora da Silva, Velório da noiva, 1974 (Divulgação)

O MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) anuncia sua programação de exposições para 2018. Nove mostras já estão confirmadas, entre coletivas e individuais, todas idealizadas e produzidas pela equipe curatorial e demais núcleos do Museu. No ano que marca os 130 anos da assinatura da Lei Áurea, uma das últimas estabelecidas pelo Império Brasileiro, que aboliu oficialmente a escravidão, o foco temático a permear toda a programação do MASP trata das histórias e narrativas afro-atlânticas. Essas se referem não só ao processo de escravização das populações africanas em territórios americanos, caribenhos e europeus, mas também às trocas bilaterais – culturais, simbólicas, artísticas, etc. – entre esses povos atlânticos, desde o século 16.

O Brasil é um território chave nessas histórias, pois recebeu cerca de 40% dos africanos que deixaram seu continente ao longo de mais de 300 anos para serem escravizados desse lado do Atlântico (número correspondente ao dobro dos portugueses que se estabeleceram no país para colonizá-lo). De maneira bastante perversa, o Brasil foi também o último país a abolir oficialmente a escravidão, em 1888.

Assim, uma grande mostra coletiva denominada "Histórias afro-atlânticas", co-organizada com o Instituto Tomie Ohtake, está prevista para junho. Ao longo do ano, o programa inclui também exposições monográficas de artistas negros ou que trabalham com representações de temas afro-atlânticos de diferentes origens e gerações. No primeiro semestre, em março, estão programadas as mostras de Aleijadinho e Maria Auxiliadora da Silva; e em abril, de Emanoel Araújo. No segundo semestre, em agosto, acontecem as individuais de Melvin Edwards e Rubem Valentim; em novembro, Sônia Gomes e Pedro Figari; e em dezembro, Lucia Laguna.

A respeito da exposição "Basquiat afro-atlântico", prevista para ocorrer de março a julho de 2018, o MASP lamenta em divulgar que optou por seu cancelamento, devido ao anúncio de uma monográfica do mesmo artista, com abertura em janeiro, por outra instituição cultural de São Paulo. Apesar de "Basquiat afro-atlântico" ter sido concebida em 2016 e já contar com a confirmação de importantes empréstimos de grandes instituições internacionais, acreditamos que a realização de duas exposições do mesmo artista, que demandam alto investimento de recursos, no mesmo ano, seria um desserviço à população de São Paulo e um mal-uso de recursos incentivados.

O ciclo em torno das "Histórias afro-atlânticas" está inserido em um projeto mais amplo de exposições, palestras, oficinas, seminários e atividades do MASP, que atenta para histórias plurais, que vão além das narrativas tradicionais, tais como "Histórias da loucura" e "Histórias feministas" (iniciadas em 2015), "Histórias da infância" (em 2016) e "Histórias da sexualidade" (em 2017).

Arthur Timótheo da Costa, O menino, 1917 

EXPOSIÇÕES 2018

Aleijadinho (título a confirmar)
Março a junho de 2018
Curadoria: Rodrigo Moura

A exposição de Antônio Francisco Lisboa, conhecido como Aleijadinho (Vila Rica, atual Ouro Preto, Minas Gerais, 1738 - 1814) pretende reunir, de maneira inédita, uma grande apresentação da obra desse artista negro, considerado um dos principais expoentes do barroco brasileiro. A mostra conta com empréstimos de alguns museus e congregações religiosas, que, além de esculturas devocionais, inclui também trabalhos de outros artistas que retratam a formação do mito Aleijadinho ao longo dos séculos 19 e 20. A exposição lança um olhar renovado sobre a produção desse artista, ao incluí-la no contexto das histórias afro-atlânticas, relacionando-a com temas como raça e escravidão no Brasil.

Maria Auxiliadora da Silva (título a confirmar)
Março a junho de 2018
Curadoria: Adriano Pedrosa e Fernando Oliva

A exposição sobre a artista Maria Auxiliadora da Silva (Campo Belo, Minas Gerais, 1935 - São Paulo, 1974) reúne cerca de 70 pinturas, apresentadas sob diferentes agrupamentos, como “vida cotidiana”, candomblé/umbanda/orixás”, “manifestações populares”, “auto-retratos” e outros. Maria Auxiliadora da Silva foi uma artista autodidata afro-brasileira. Começou a desenhar com carvão ainda na adolescência, depois passando para a pintura a óleo, que praticou até o final da vida. A artista desenvolveu uma técnica própria, baseada na mistura de massa de poliéster com o próprio cabelo, dando assim origem a volumes e texturas em suas telas. A exposição de Maria Auxiliadora se insere no contexto do programa de revisão da produção de alguns artistas que, por diversos motivos, não tiveram suas obras incluídas nas narrativas hegemônicas da arte brasileira.

Emanoel Araújo (título a confirmar)
Abril a julho de 2018
Curadoria: Tomás Toledo

Nome fundamental do cenário artístico brasileiro, o curador e artista Emanoel Araújo (Santo Amaro, Bahia, 1940) iniciou sua produção em arte na década de 1960. Sua obra, fundamentalmente escultórica, é caracterizada pelo construtivismo geométrico e pela influência de temáticas afro-brasileiras. A exposição de Emanuel Araújo dá ênfase aos trabalhos que lidam com as simbologias das religiões afro-brasileiras, como as diversas esculturas que representam orixás do candomblé, e com obras que tematizam as relações afro-atlânticas, presentes em sua série de navios negreiros.

Histórias afro-atlânticas
Junho a outubro de 2018
Curadoria: Adriano Pedrosa, Ayrson Heráclito, Hélio Menezes, Lilia Schwarcz e Tomás Toledo

O Museu de Arte de São Paulo e o Instituto Tomie Ohtake organizam, em conjunto, a exposição "Histórias afro-atlânticas", que reúne uma ampla seleção de obras de arte e documentos relacionados aos “fluxos e refluxos” (usando a famosa expressão de Pierre Verger) entre a África, as Américas, o Caribe e também a Europa. Contemplando trabalhos do século 16 ao 21, a mostra inclui uma variedade de temas que organizam seus diversos núcleos, alguns dos quais estavam presentes em "Histórias mestiças", exposição com curadoria de Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz apresentada no Instituto Tomie Ohtake, em 2014: retratos, vida cotidiana, viagens e tráfico, punições e revoltas, festas e religiões, liberdades e abolições, ativismos, abstrações e modernismo africano.

Dois seminários foram realizados no MASP sobre o assunto, o primeiro em 28 e 29 de outubro de 2016, o segundo em 21 e 22 de outubro de 2017, reunindo especialistas em vários domínios e temas, como história da arte, sociologia, história e antropologia. Um terceiro seminário acontecerá no Instituto Tomie Ohtake durante a exposição.

Melvin Edwards (título a confirmar)
Agosto a novembro de 2018
Curadoria: Rodrigo Moura

A exposição de Melvin Edwards (Houston, Texas, Estados Unidos, 1937) vai reunir obras de sua célebre série Lynch Fragments, produzida desde os anos 1960 até hoje. Nessas esculturas de parede, o artista reúne diversos objetos em metal, como correntes e ferramentas de trabalho, para lidar com questões como raça, violência, trabalho e escravidão, especificamente no contexto da diáspora africana. Esta será uma importante mostra em profundidade do artista, considerado uma das principais referências entre artistas afro-americanos em atividade.

Rubem Valentim (título a confirmar)
Agosto a novembro de 2018
Curadoria: Adriano Pedrosa e Fernando Oliva

A exposição em torno da obra de Rubem Valentim (Salvador, 1922 - São Paulo, 1991) reúne cerca de 60 trabalhos com o propósito de rever a produção desse fundamental artista brasileiro do século 20, responsável por promover potentes articulações entre os elementos da tradição ocidental e as raízes africanas da cultura brasileira. Pintor, escultor e gravador, Rubem Valentim cresceu em contato íntimo com a religiosidade sincrética afro-brasileira: sua família era católica, mas o artista também frequentava terreiros de candomblé. Já adulto, Valentim relataria seu deslumbramento tanto com os ritos afro-brasileiros quanto com a imaginária das igrejas cristãs, especialmente os santos barrocos.

Nas obras de Valentim há uma interpenetração muito sutil e precisa entre a estrutura de base construtiva e a iconografia e o colorido herdados do universo mágico e religioso afro-brasileiro. Nesse sentido, podemos dizer que Valentim é um dos artistas que, de maneira mais completa e ambiciosa, realizou o desejo antropofágico da cultura brasileira – a ideia, lançada pelo poeta Oswald de Andrade no final dos anos 1920, que propunha “deglutir” o legado cultural europeu, “digeri-lo” e então devolvê-lo ao mundo sob a forma de uma arte tipicamente brasileira.

Sônia Gomes (título a confirmar)
Novembro de 2018 a fevereiro de 2019
Curadoria: Camila Bechelany

As esculturas e instalações de Sônia Gomes (Caetanópolis, Minas Gerais, 1948) são feitas a partir de materiais residuais, principalmente têxteis e outros objetos diversos. Ela constrói estruturas envolvidas ou inteiramente construídas de tecidos, muitas vezes antigos, e originários do acervo familiar. Caetanópolis, cidade natal de Gomes, é importante centro de manufatura têxtil e a infância da artista foi marcada pelo universo da costura e do bordado. Sua produção visual remete a práticas artesanais brasileiras: as amarrações, nós, patuás, trouxas e tramas que compõem o trabalho lembram detalhes de vestimentas que encontramos em festas populares, como a folia de reis e o congado – expressões culturais afro-brasileiras – mas também à tradição de bordadeiras e rendeiras de Minas Gerais, todos parte de sua formação artística.

Pedro Figari (título a confirmar)
Novembro de 2018 a fevereiro de 2019
Curadoria: Adriano Pedrosa e Mariana Leme

Pedro Figari (Montevidéu, Uruguai, 1861-1938), artista branco, é um dos grandes representantes do modernismo uruguaio, unindo, em sua pintura, um estilo muito particular de gestos, manchas e movimento, e um desejo de explorar uma América Latina autônoma, baseada em suas raízes históricas e étnicas. Neste sentido, Figari atuou durante grande parte de sua vida como advogado de destacada voz pública, defendendo temas ligados aos direitos humanos, à educação e à arte. Foi diretor da Escola de Artes e Ofícios em Montevidéu e ali defendeu a fusão entre indústria e arte com uma identidade latino-americana, visando fomentar “a mentalidade nacional com critérios próprios”. Aos 60 anos passa a se dedicar à pintura, retratando o passado do país, com cenas cotidianas, casamentos, bailes, paisagens e festas populares, sobretudo das comunidades afro-uruguaias. Destacam-se, em suas pinturas, representações do candombe, dança de origem afro-americana que se praticava em grupo – sendo que uma das mais significativas desse conjunto faz parte do acervo do MASP. O foco da exposição será o das narrativas afro-uruguaias: além das danças do candombe, estarão expostas representações de festas negras, cenas de trabalho, passeios, entre outros, retratando a expressiva presença dessa população em seu país.

Lucia Laguna (título a confirmar)
Dezembro de 2018 a março de 2019
Curadoria: Isabella Rjeille

A paisagem é o ponto de partida das pinturas de Lucia Laguna (Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, 1941). Da janela de seu ateliê no bairro São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, as telas de grandes proporções, com elementos da cidade, misturam-se a formas abstratas e representações de objetos do interior da casa da artista. A sobreposição de camadas e técnicas distintas de pintura é uma característica fundamental na produção de Laguna, revelando um processo lento e minucioso. A artista iniciou sua carreira de pintora após frequentar os cursos de pintura e história da arte na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, nos anos 1990.

Rubem Valentim, Composição 12, 1962 (Divulgação)

Serviço
MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Endereço: Avenida Paulista, 1578, São Paulo
Horários: terça a domingo, das 10h às 18h (bilheteria aberta até as 17h30); quinta-feira, das 10h às 20h (bilheteria até 19h30)
Ingressos: R$30,00 (entrada); R$15,00 (meia-entrada). O MASP tem entrada gratuita às terças-feiras, durante o dia todo. AMIGO MASP tem acesso ilimitado e sem filas todos os dias em que o museu está aberto. O ingresso dá direito a visitar todas as exposições em cartaz no dia da visita. Estudantes, professores e maiores de 60 anos pagam R$15,00 (meia-entrada). Menores de 10 anos de idade não pagam ingresso. O MASP aceita todos os cartões de crédito.