Notícias

Voltar

LUZ E SOMBRA > CHRISTIAN CRAVO

Por Juan Esteves.

Autor de vários livros como Mariana (Apuena, 2016) [ já comentado aqui neste blog] ou Roma noire, ville métisse(Autrement, 2005) publicado na França, e sua própria antologia que revisita seus primeiros trabalhos Christian Cravo (Cosac e Naify, 2014, entre outros cujo tema principal era o homem e suas questões mais espirituais, o sincretismo entre a África e o Brasil na tradição de grandes autores como o francês Pierre Verger (1902-1996), o fotógrafo baiano Christian Cravo agora publica Luz e Sombra ( Apuena, 2016), algo que difere de suas primeiras preocupações, mas que ainda mantém uma conexão com as suas raízes .

Christian Cravo mudou-se com 13 anos para Dinamarca, país que acolheu suas fotografias durante 8 anos entre idas e vindas à Bahia. Neto do escultor Mario Cravo Junior e filho do fotógrafo Mario Cravo Neto (1947-2009), celebrados por seus originais trabalhos, sempre teve como influência a luz tropical de sua terra natal. Em Luzes e Sombras, realizado na África, durante o ano de 2015, ele aferrece seus tons mais duros e se debruça por tonalidades mais amplas, exemplarmente impressas no processo Fullblack da gráfica Ipsis. Também, elenca diferentes protagonistas: belos animais selvagens e a ancestral paisagem do continente intacta em sua beleza.

A crítica de arte e curadora carioca Ligia Canongia analisa esta nova perspectiva imagética lembrando a noção do punctum enunciada pelo francês Roland Barthes (1915-1980) em sua retomada, na linguagem fotográfica, do que poderia ser uma empatia perdida. Para ela o filósofo sugere que nos deixemos novamente “tocar” pelas imagens, “discurso ao qual Cravo responde afirmativa e prontamente com seus pontos de vista admiráveis.” Seria uma contrapartida ao pensamento de outro francês mais contemporâneo, o filósofo Paul Virilio, de que há um quadro geral de torpor causado pelos meios públicos de massa, que provocam uma perda da capacidade de reflexão e razão crítica .

É certo que a busca por uma imagem fineart que se oponha ao volume urbano tanto quanto ao conteúdo mais conceitual, cuja problematização na fotografia tem sido visivelmente exarcebada,  fez surgir na última década um canal mais atento a caminhos mais contemplativos sem que estes percam sua vertente documental, caso do mineiro Sebastião Salgado com sua saga Genesis, por exemplo, assim como este caminho seguido por Cravo. A diferença é que a linguagem deste último não é messiânica como a do primeiro, ainda que ambos compartilhem de ações semelhantes, como a reedição de imagens em formatos históricos como o Platinum Palladium Print, impressas por grandes negativos gerados digitalmente.

Para Ligia Canongia, as imagens de Christian Cravo são apaixonadas, dramáticas e comoventes, “sem perder, paradoxalmente, o teor documental que sempre as acompanhou.”  Diferem da neutralidade do documento, do registro imparcial que se distancia do objeto fotografado, de seus primeiros trabalhos. “É no fio dessa navalha que suas fotos se sustentam, na ambivalência entre a objetividade e a expressão, ou entre o rigor formal e a exaltação lírica.”

Algumas direções, ainda apontados pela curadora, analisam com precisão a mudança da imagem documental mais ritualística, baseada em narrativas centradas no humano, em contraposição as atuais imagens captadas em diferentes países do continente africano como Namíbia, Zâmbia, Botsuana, Tanzânia, Congo, Uganda e Quênia cuja expressão gráfica se aproxima da abstração. A capa, um detalhe de uma zebra, já é um bom exemplo desse roteiro seguido, ampliados pelos recortes de paisagens, rios e tempestades. Entretanto, diferentes animais se impõem como protagonistas, diante da reverência do fotógrafo para com eles, em verdadeiros portraits com pompa e circunstância.

Christian Cravo, entre outros fotógrafos, demonstra que também há uma demanda no cenário da arte por uma fotografia longe do perfil conceitual, boa parte incompreensível, carente de beleza ou emoção, cuja produção parece abastecer apenas um pequeno nicho intelectualoide. Suas imagens, as vezes épicas ou calcadas em significativos detalhes, desafiam o status quo de que a imagem contemporânea deva ser sempre fruto de uma problematização.

Se as imagens parecem desmaterializar a natureza, desestabilizar a percepção e cativar nossa imaginação para um mundo fronteiriço ao real, como observa Ligia Canongia,“O uso do preto e branco nessa obra, como de resto na maioria do trabalho de Christian Cravo, corrobora o estatuto desencarnado da fotografia, que não é mais do que um traço de seu sujeito ou objeto de referência, sinaliza a "irrealidade” da imagem, posta em contradição com o cromatismo empírico, perturbando, assim, a ordem pragmática das coisas do mundo.”

Neste tempo presente, onde arautos apregoam, mais uma vez, a extinção da fotografia monocromática, é bom ver que ainda existem trabalhos que provocam estesia  através de um dos mais rudimentares e seminais princípios da arte: a simples beleza de uma imagem.

Imagens © Christian Cravo / Texto © Juan Esteves

Sobre Juan Esteves:
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras. (foto: Ernest Hemingway escrevendo © Paris Review) uma homenagem ao grande autor.

Conheça o blog do Juan Esteves e confira as novidades em sua pagina no Facebook
Outros textos de Juan Esteves: Next > Klaus Mitteldorf e Odires Milászho
Confira em nossa agenda a Exposição Luz e Sombra.