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Entenda a polêmica da performance de Wagner Schwartz no MAM

Texto por Giovanna Fava Mitrani. 

Pela segunda vez no mês de setembro, surge a polêmica acerca da censura de arte contemporânea.

Na última terça-feira (26) foi realizada a abertura do “35º Panorama da Arte Brasileira”, no Museu de Arte Moderna - MAM-SP, onde o artista Wagner Schwartz apresentou sua performance ‘La Bête’, que em francês significa ‘bicho’ ou ‘inseto’.

A performance é inspirada na série de esculturas Bichos de Lygia Clark, desenvolvida nos anos 1960 e feitas a partir de chapas metálicas que devem ser manipuladas e manuseadas pelos espectadores para então se metamorfosear em diferentes formas, ou “bichos”. Nesta performance, o artista carioca se apresenta nu junto de uma réplica plástica de uma destas esculturas e “permite a articulação das diferentes partes do seu corpo através de suas dobradiças”, segundo a próprio site do artista. Por meio deste trabalho, o artista se transforma numa escultura performática, que assim como as esculturas, requerem a interação do público e dos espectadores para tomar vida.

Performance ‘La Bête’, de Wagner Schwartz (Foto: Através.tv/Reprodução)

O debate em questão resultou de vídeos e fotografias registrados na exibição desta terça-feira, em que uma menina, com não mais que cinco anos, aparece interagindo com o artista despido. A partir disto, acusações de pedofilia, intimidação e inadequação estão rodando as redes sociais, apontando a instituição e o artista como agressores. O que deve ser ressaltado é que toda imagem, obra ou performance necessariamente precisa ser vista diante do contexto em que se insere. A performance é composta por um homem nu, mas um homem que neste contexto não deve ser visto e entendido como figura viril de cunho erótico, e sim como o próprio ‘bicho’ das esculturas de Lygia Clark. Wagner Schwartz empresta seu corpo como meio artístico a ser trabalhado por aqueles que assistem e escolhem participar de sua performance.

Instituições artísticas não usam a censura de idade na entrada de suas exposições como o PG (Parental Guidance) usado no cinema, pois a arte não é e nem deve ser censurada. O que acontece em mostras com cenas fortes, possivelmente impressionantes para menores de idade (ou qualquer outro visitante) é a devida indicação na entrada. Segundo a nota de esclarecimento do MAM “A sala estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística, seguindo o procedimento regularmente adotado pela instituição de informar os visitantes quanto a temas sensíveis”.

Neste caso, a menina que aparece nas imagens estava acompanhada de sua mãe, que julgou apta a entrada de sua filha na exposição e digna de participar, assim como muitos outros ali presentes. Cabe somente ao responsável decidir se o menor deve ou não ser exposto e até interagir com a arte proposta. Neste caso foi permitido que houvesse a troca proposta pela performance, e assim aconteceu.

É preciso ressaltar mais uma vez que o contexto é de suma importância para a interpretação de qualquer trabalho artístico e de qualquer imagem que é publicada na Internet. O corpo nu não necessariamente implica o erotismo, algo que é difícil de compreender com a constante sexualização do corpo, principalmente o feminino. Wagner Schwartz, assim como Marina Abramovic, Lia Chaia, Chris Burden, Yoko Ono, e tantos outros artistas, entrega seu corpo nu à performance como uma folha em branco, cru e despido de qualquer barreira que possivelmente implique na compreensão de seu trabalho e não como nu erótico.

Menina aparece interagindo com a performance ao lado da mãe (Reprodução)

As falas de revolta e acusação que surgiram diante desta apresentação são parecidas com as que aconteceram no começo do mês, que levaram ao encerramento da exposição “Queermuseum”, que deveria estar em cartaz até 8 de outubro mas foi cancelada dia 10 de setembro pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, após comentários negativos em redes sociais, que acusavam o espaço cultural de promover a exibição de “zoofilia e pedofilia com dinheiro público” (a mostra contava com recursos da Lei Rouanet).

Estamos diante, então, de uma contradição difícil de se entender. Em um momento onde prezamos pela liberdade de expressão, em que as redes sociais permitem que todas as opiniões sejam expressadas, ouvidas e avaliadas, nos deparamos com comentários desinteressados ou desinformados sobre contextos, isentos de empatia e firmemente apegados a uma visão que não permite explicações e espaços para trocas de conhecimento e visão de mundo. E o pior: com respaldo de parcela da imprensa, que chegou a chamar as imagens de "constrangedoras aos olhos de qualquer ser humano". 

Não podemos correr o risco de deixar que a Arte Contemporânea seja censurada, pois impedir que ela vá além do senso comum é apagar a história que a levou ao ponto onde está hoje: uma fonte fundamental para discussão, reflexão, questionamento, afrontamento quando necessário e, finalmente, compreensão. O conservadorismo não cabe dentro do fazer artístico contemporâneo.

Nota InfoArtSP
O InfoArtSP apoia o MAM-SP, a exposição "Queermuseum" e todos aqueles que se posicionam em defesa daquela que nunca deve deixar de guiar os povos: a liberdade.

Nota MAM-SP
NOTA DE ESCLARECIMENTO

O Museu de Arte Moderna de São Paulo informa que a performance “La Bête”, que está sendo questionada em páginas no Facebook, foi realizada na abertura da Mostra Panorama da Arte Brasileira, em evento de inauguração.

É importante ressaltar que o Museu tem a prática de sinalizar aos visitantes qualquer tema sensível à restrição de público. Neste sentido, a sala estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística.

O trabalho não tem conteúdo erótico e trata-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark, artista historicamente reconhecida pelas suas proposições artísticas interativas.

É importante ressaltar que o material apresentado nas plataformas digitais omite a informação de que a criança que aparece no vídeo estava acompanhada de sua mãe durante a abertura da exposição.

Portanto, os esclarecimentos acima denotam que as referências à inadequação da situação são fora de contexto.