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Do moderno ao contemporâneo: o gabinete de curiosidades e a Maison Deyrolle

Por Maryella Sobrinho.

Próxima aos grandes centros de arte de Paris, como o Musée d’Orsay, Louvre e Musée Rodin, existe um local surpreendente, que pode passar despercebido por quem caminha pela Rue du Bac. Quando se entra na Maison Deyrolle, temos a impressão de tratar-se apenas de uma loja de livros e instrumentos relacionados à botânica e jardinagem, além dos artigos de papelaria. Mas logo atrás do balcão do caixa, uma escada nos leva a um outro mundo, cuja história começa no século XIX. 

Fachada da Maison Deyrolle.

Em 1831, Jean-Baptiste Deyrolle, um aficionado por entomologia, fundou a Maison Deyrolle, um negócio destinado à venda de insetos e equipamento de caça para coleções de história natural. Aos tornar-se taxidermista, Jean-Baptiste transmitiu seu conhecimento ao seu filho Aquiles. Três décadas depois, a casa é assumida por Émile Deyrolle, neto do fundador. Emile Deyrolle continuará a atividade de taxidermista e venda de equipamentos para as coleções de caça e de insetos, além de dedicar-se à publicação e venda de livros especializados sobre a fauna e flora.

Nessa época, ainda existia uma mania surgida séculos antes, a coleção de insetos e outros animais, muitos deles trazidos por cientistas que viajavam longas distâncias, para pesquisar e enriquecer acervos de museus de história natural. Entre os séculos XVI e XVII, a prática de formação de coleções contendo elementos raros e exóticos dissemina-se pela Europa, sob o nome de Gabinete de Curiosidades. Tais coleções, mantidas pela nobreza, aristocracia, humanistas e artistas, deveriam suprir a ânsia da descoberta do mundo. O resto do mundo, ‘descoberto’ com as grandes navegações era grande e rico em demasia; por isso, característica dos gabinetes era a variedade, reunindo num pequeno espaço toda a sorte de objetos vindo dos quatro cantos do planeta. Com o passar do tempo, muitos desses gabinetes acabaram sendo doados aos museus e universidades, adquirindo função educativa.

Embora pareçam datados, os gabinetes de curiosidades ainda encontram lugar no mundo contemporâneo. De acordo com a instituição, a Maison Deyrolle é o último do mundo aberto à visitação. Ali, naturalistas e colecionadores podem iniciar e complementar suas coleções de minerais, conchas, borboletas e insetos, ervas e objetos voltados à osteologia, zoologia ou botânica. No segundo andar, estão expostos equipamentos científicos, peças de taxidermia e osteologia, mobiliário escolar, livros e gráficos (todos distribuídos às escolas e universidades francesas). Com sorte, pode-se observar o empalhamento de animais por taxidermistas que trabalham no local. É importante lembrar que alí, nenhum animal foi morto para ser naturalizado: os animais não domésticos vêm de jardins zoológicos, circos ou fazendas, onde morreram por doença ou de idade. Esta mistura é perfeitamente organizada: uma equipe de acadêmicos e cientistas cuidam da organização e catalogação dos objetos e animais expostos, de acordo com sua especialidade. 

Exemplares à venda e em exposição.

Neste gabinete de curiosidades, muitos já foram buscar referências, como Salvador Dalí e Woody Allen, que elegeu o lugar como uma das locações das cenas de Meia Noite em Paris. Ainda hoje, colecionadores, cientistas e designers de todo o mundo se dirigem ao local para observar a beleza da natureza e maravilhar-se com tantas peças incríveis.

Animais à venda e em exposição.

Quer iniciar seu Gabinete de Curiosidades com peças Deyrolle? Com 15 a 30.000 euros, você pode adquirir uma pequena borboleta, ou um leão empalhado.

Obs. 1: Para saber mais sobre a história da Maison Deyrolle, conhecer o acervo e loja virtual, acesse:
https://www.deyrolle.com/histoire/le-46-rue-du-bac aujourd-hui-un-lieu-exceptionnel/visite-virtuelle
Obs. 2: A Maison não permite fotos no local. As imagens aqui disponíveis estão disponíveis no site.

Referências:
RAFFAINI, P. T. Museu Contemporâneo e os Gabinetes de Curiosidades. Rev. do Museu de Arqueologia e
Etnología, S. Paulo, 3: 159-164, 1993.
https://www.deyrolle.com/histoire/historique-de-la-maison-deyrolle/naissance-la-famille-deyrolle

A colunista:
Maryella Sobrinho é doutoranda em Teoria e História da Arte, na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), com orientação da Profª Drª. Rosângela Miranda Cherem. Atualmente, pesquisa a obra da escultora Cristina Iglesias e suas relações com o espaço paisagístico. É mestre em Teoria e História da Arte pela Universidade de Brasília (UnB), com bolsa CAPES e REUNI, quando estudou a coleção do Banco Central.
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