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CARMELA GROSS

Por Juan Esteves

A paulistana Carmela Gross é uma artista cujos múltiplos trabalhos lidam com a cidade e suas idiossincrasias. Estão representados em intervenções como a obra Iluminuras, de 2010, uma série de sinalizadores giratórios instalados no prédio da Estação Pinacoteca, na praça General Osório em São Paulo, ou TERRA, mais recente, criada em 2017, um painel iluminado com leds e instalado no teto do Museu da Escultura Brasileira (MuBE) na mesma cidade, além de vídeos, pinturas, heliografias e litografias que mostram sua larga e confortável habilidade em diferentes mídias produzidas nos últimos 50 anos comemorados no livro Carmela Gross (Cobogó, 2017).

A edição e organização  do livro é de Douglas de Freitas, da Curadoria de Artes Visuais do Museu da Cidade de São Paulo, que organizou o livro de forma cronológica, “procurando apresentar a obra de Carmella Gross de forma objetiva e clara, sem artíficios e independente de uma narrativa.” A publicação mostra suas criações acompanhadas de desenhos ilustrativos, projetos e reflexões acerca do processo construtivo. Para o editor, “Quase um arquivo de trabalho.” Traz também ensaios de outros curadores como a carioca  Luisa Duarte, o paulista Paulo Miyada e a pernambucana Clarissa Diniz, bem como uma conversa da artista com o editor realizada em 2017.

Não há dúvida que a compreensão de uma arte é enriquecida com a própria reflexão do artista, ainda que, na nossa contemporaneidade, muitas obras com pretensões conceituais façam justamente o contrário. Daí um dos méritos da publicação em trazer as meditações de Carmela Gross sobre sua criação e trajetória. Por exemplo, Escada, de 1968, uma espécie de desenho em um barranco da periferia de São Paulo, mostra “talvez um grafismo paleolítico pois ele evoca a maneira mais primitiva de desenhar- um risco de tinta sobre uma superfície de terra.” Aqui a realização de uma obra conceitual, “quase um jogo”, como diz a artista. “Simples sem qualquer outra problemática, além de desenhar linhas com linhas uma escada sobre outra escada.”

Ainda sobre TERRA, de 2017, fitas de led azul presas a uma estrutura metálica, no teto do MuBE, a artista conta que ao propor o luminoso, que ninguém poderia ler diretamente (portanto aqui visivel somente em sua representação fotográfica) ela quis trabalhar com que ela chama de des-visibilidade do mundo que se contrapõe a ideia do saturado mundo da visibilidade “via imagens e mais imagens”. A ideia é que se o espectador tem notícia da obra, ele pode também buscar “imaginar, pensar, supor ou procurar ver.” Para Luisa Duarte, esta passagem é generosa, no sentido maior que a obra da artista  busca subverter um mundo positivado pela imagem, e também, pelas palavras. Se o turbilhão de signos visuais transformou a percepção humana tornando-a menos sensível, diz a curadora, o excesso de luz nada revela, ao contrário, ele cega. Recorrendo ao filósofo tcheco Vilém Flusser (1920-1991) em uma ótima definição sua, estamos “surdos opticamente”.

Carmela Gross confessou certa vez à curadora Clarissa Diniz: “Eu queria mesmo era grunhir”, na única conversa em que as duas tiveram. Uma referência que trouxe do artista americano, o escultor Paul McCarthy, falando sobre o seu trabalho. Não ter necessidade de legitimar, justificar, contextualizar ou explicar a sua obra “permitia a ele que grunhisse”. Da interessante conversa surge o pensamento “o lugar do artista diante de um campo cultural cuja institucionalidade e especialização possibilitavam que não fossem exigidas, do "autor”, as atribuições de crítico, educador, jornalista, pesquisador, galerista, entre outras coisas.“ Para curadora, o percurso de Carmela Gross foi claramente diverso, nos seus 50 anos como artista, 40 deles vividos como professora na Universidade de São Paulo (USP). A artista adotou uma postura quase discritiva ao discorrer sobre sua obra. Entretanto, uma proposta mais que pessoal anexada a sua vasta obra.

Na antologia figuram intervenções urbanas como instalações de outdoors, no bairro da Pompéia, de 1996, parte de seu projeto Contato, quando a cidade ainda autorizava essa mídia. Obras mais antigas, Nuvens, de 1967,  unidades de madeira esmaltada na Pinacoteca. Seus Buracos, intervenção no antigo Matadouro Municipal, no projeto Arte/Cidade de 1994;  Carimbos, de 1978, uma obra em quatro séries. Escada de Emergência, instalação com lâmpadas fluorescentes, de 2012, montada na Galeria Vermelho. Trabalhos que também revelam ecléticas maneiras expositivas, seja em espaços da arte privados, museus, espaços institucionais e em lugares públicos, uma ampla abordagem espacial dificilmente encontrada no nosso fluxo artístico.

No projeto de 2000, US CARA FUGIU CORRENDO, em neon, temos um resumo significativo do peculiar modus operandi da artista. É um neon que transcreve uma pichação de rua na parede de um museu. Portanto, uma ressignificação que foi trabalhada em diferentes etapas. O recorte de uma memória da rua, como eixo fundamental, "trazendo a língua errante, uma caligrafia tribal, uma escala e os cortes, os espaçamentos.” Cacos de vidro foram fixados no alto da parede pintada na cor rosa. O efeito, foi o tingimento de vermelho do espaço, ressaltando os “garranchos” pontiagudos do texto. Para a artista, o museu ao acolher esta fala se abriu para um momento às relações passageiras da rua. Em um breve paralelo podemos lembrar do artista espanhol Miguel Rio Branco e seu "NADA LEVAREI QUNDO MORRER" (MASP, 2017) com imagens realizadas em 1979 no bairro do Maciel, em Salvador, cuja permanência da obra também acontece pela relação rua-museu. [veja aqui o review do crítico].

Essa relação temporal, onde algumas obras não são definitivas nos lugares onde acontecem, principalmente aqueles públicos,  resistem em sua longevidade em antologias como esta, daí muito da importância deste livro. Para o curador Paulo Miyada, as gerações do artistas brasileiros que cresceram nas décadas de 1960 e 1970 mostram uma convivência entre sua produção artística e a concentração da população nos espaços urbanos.

Miyada ainda percebe que os artistas: “apresentam marcas do convívio com as transformações paisagísticas e ambientais em curso. Cercados por estímulos imagéticos crescentes, cada vez mais dominantes na paisagem urbana.” No apelo desbragado dos signos pré-fabricados da propaganda de massa e da arquitetura de grandes empreiteiras, continua o curador, os artistas muitas vezes manifestam algum mecanismo de defesa.

Notável, por certo em Carmela Gross é a ausência de fronteiras de seu instigante trabalho, ainda que cercado por essa adversidade demonstrada, inclusive por barreiras geográficas, a artista confronta o espaço urbano e a humanidade nele contida e se sobrepõe à cidade que habita e trabalha. Como ela mesmo diz, “os trabalhos são ferramentas e engrenagens para a constituição daquilo que se quer como pensamento, ação crítica, atividade sensível no mundo.“

Imagens : © Obras de Carmela Gross / Texto © Juan Esteves.

O livro será  lançado no dia 26 de março de 2018, às 18h30, na Livraria da Vila, rua Fradique Coutinho, 915, São Paulo.

Sobre Juan Esteves
Nascido em Santos, SP, é fotógrafo e jornalista há 30 anos. Escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, onde foi fotojornalista e editor de fotografia. Foi colunista da revista Iris Foto e do portal Fotosite, onde também foi editor, além de colaborar com diversas revistas como a SeLecT, Santa Art Magazine e Fotografe Melhor. Suas imagens já foram publicadas pelas editoras Penguin ( Inglaterra), Rizzoli ( Itállia), Autrement ( França) Editorial Crítica ( Espanha), Rive Gauche (China) e Yale University (EUA) entre outras. (foto: Ernest Hemingway escrevendo © Paris Review) uma homenagem ao grande autor.

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Outros textos do autor: Jogos de Aparência - Retratos da Aristocracia do Açúcar > Georgia QuintasLuz e sombra > Chiristian Cravo; Next > Klaus Mitteldorf e Odires Mlászho.