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Fissures

Artists: Rafael Pagatini

Curator: Priscila Arantes

From 2/8 to 4/9

MIS - Museu da Imagem e do Som Ver mapa

Address: Avenida Europa, 158 - Jardim Europa - São Paulo - SP CEP 01449-000

Telephone: (11) 2117-4777

O golpe militar de 1964 norteia a exposição "Fissuras", de Rafael Pagatini, que o Paço das Artes apresenta entre os dias 2 de agosto e 4 de setembro de 2016, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP). A entrada é livre e gratuita.

Rafael Pagatini, Bem Vindo Presidente!, 2016 (Divulgação)

De acordo com o artista selecionado para a Temporada de Projetos 2016, "Fissuras" propõe o debate sobre o processo de modernização do Estado do Espírito Santo, que ocorreu ao longo do regime militar brasileiro (1964-1985). Por meio das relações entre arte, política e história, a mostra apresenta o discurso do progresso, suas formas de construção da memória e os vínculos de poder para refletir sobre a sociedade contemporânea. “A exposição promove a discussão sobre o tema ‘memória e esquecimento’ e se estrutura como lugar de pesquisa que visa reverberar as discussões para além da arte”, diz o artista gaúcho, radicado em Vitória/ES.

Priscila Arantes, diretora artística e curadora do Paço das Artes, salienta a importância desta exposição. “O diálogo entre a arte e as problematizações político-sociais tem sido uma das constantes do trabalho da instituição, já reconhecida por apoiar e fomentar a jovem arte contemporânea brasileira”.

Rafael Pagatini conta que os trabalhos da exposição, divididos em cinco conjuntos – Bem-vindo presidente!, Manipulações, DOPS (Série Movimentos Religiosos), Grito surdo e A família cristã –, foram desenvolvidos utilizando processos de impressão em diferentes suportes e materiais, a partir dos documentos pertencentes ao arquivo público capixaba, como jornais da época, arquivo iconográfico de ex-governadores e do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

"Fissuras" problematiza também a participação de empresas privadas no governo de exceção, a perseguição às organizações sociais por agentes do DOPS e o modelo de mulher e de família favorável ao golpe de Estado.

Em diálogo com a mostra, o Paço das Artes realizará duas atividades paralelas: no dia 3 de agosto, às 19h, ocorre um bate-papo sobre Arte e Política com o artista Rafael Pagatini, o crítico Gabriel Bogossian, o pesquisador Diego Matos e a diretora artística e curadora do Paço das Artes Priscila Arantes no LABMIS. No dia 19 de agosto, haverá a exibição do documentário “15 Filhos”, de Marta Nehring e Maria Oliveira, seguida de debate.

Os eventos integram a programação da Temporada em debate, que promove até dezembro uma série de eventos relacionados às mostras dos demais selecionados para a Temporada de Projetos 2016 - Bruno Oliveira e Victor Tozarin, Grasiele Sousa e Marina Takami, José Viana (em colaboração com Camila Fialho) e Tiago Mestre.

Rafael Pagatini, DOPS [Série Movimentos Religiosos], 2016 (Divulgação)

Sobre as obras – por Rafael Pagatini
Bem-vindo Presidente!, 2016 - impressão a jato de tinta sobre papel haini.
Instalação baseada na catalogação realizada pelo artista de anúncios de empresas, datados da década de 1960, 70 e 80, publicados no jornal A Gazeta, em circulação na cidade de Vitória, no Espírito Santo. As datas utilizadas para catalogação do jornal foram baseadas em visitas de ex-generais-presidentes militares em terras capixabas para inaugurar os chamados Grandes Projetos (Porto de Tubarão, Samarco Mineração, Aracruz Celulose, Companhia Siderúrgica de Tubarão, entre outras) no Estado. Este material foi impresso utilizando impressora a jato de tinta em papel haini. O trabalho aborda o discurso modernizante no Brasil ao longo do regime militar e suas alianças de poder na imprensa. As imagens são afixadas apenas nas pontas superiores, deixando o trabalho com leveza e se movimentando pela ação das correntes de vento do espaço expositivo. Os anúncios publicados no jornal foram catalogados a partir do material disponível no Arquivo Público do Estado em microfilme, e que, a pedido do artista, foi digitalizado. Enquanto proposta artística, a catalogação busca apontar a relação entre militares e iniciativa privada, apresentando o jornal como espaço público de discussão e braço ideológico do regime.

Manipulações, 2016 - xilogravura sobre papel kozo.
A imagem de carros incendiados é presença constante em manifestações desde o regime militar brasileiro. O carro símbolo da modernidade brasileira parece incitar a insubordinação através da máquina moderna sendo destruída pelas chamas. Ao mesmo tempo a imagem também pode ser utilizada como forma de manipulação como, por exemplo, o Atentado ao Riocentro, promovido por militares com o objetivo de acusar a esquerda por atos terroristas e que teve no carro destroçado o grande exemplo de seu fracasso. O presente trabalho foi desenvolvido a partir do pensamento que algumas imagens parecem atravessar a história recente brasileira e podem se estruturar como representações constantes de nosso imaginário. Nesse caso, a imagem foi apropriada de noticiários da internet sobre as manifestações de junho de 2013, transformada em retícula e gravada manualmente sobre chapa de compensado em grande formato e finalmente impressa em papel. A gravura apresenta certa precariedade e busca discutir as formas de manipulação da fotografia que se transforma em xilogravura num processo de perda e transformação da representação visual.

Grito surdo, 2016 - cimento fundido.
O trabalho é composto por 21 objetos que fazem referência a manifestações públicas e ficam expostos no chão da galeria. São produzidos através de cimento fundido, material presente em túmulos e construções, e possuem formato de megafone, objeto utilizado em manifestações públicas. O trabalho faz referência a palavras, discursos concretados pela ação do tempo, utopias petrificadas e vozes silenciadas. Cabe destacar, que esses fatos, se perpetuam até a atualidade em chacinas realizadas como o desaparecimento de Amarildo, no uso da violência e injustiça social.

DOPS (Série Movimentos Religiosos), 2016 - impressão UV sobre madeira.
Documentos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), que foi o órgão do governo brasileiro, utilizado principalmente durante o Regime Militar (1964-1985) com o objetivo de controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder. As fotografias e textos são documentos oficiais do relatório de agentes do DOPS sobre o “Concílio de Jovens”, evento organizado por movimentos sociais, igreja católica e alvo da repressão política, principalmente, pela ligação ideológica de alguns padres com a Teologia de Libertação. As fotografias e textos ficam justapostos e soltos sobre canaletas de madeira criando relações de referencialidade entre imagem e texto, além de processo de desestabilização entre a tipologia da imagem e texto. O público é convidado a manipular e intervir no trabalho encontrando novas relações entre as imagens fotográficas e as descrições textuais. As combinações realizadas se estruturam como curto circuito, fissuras e ativações mostrando assim possíveis aleatoriedades, abusos, paranoias e desejos nas escolhas realizadas pelo agente do DOPS e como o arquivo pode criar novos agenciamentos a partir da forma como é manipulado.

A Família Cristã, 2016 - exemplares da revista da década de 1960.
A revista católica “Família Cristã” apresenta na década de 1960 a imagem da mulher como guardiã do bem-estar do lar e a noção de mundo na qual ela se estabelece como a conservadora das tradições e principalmente da família. Esta noção promovia o discurso anti-comunista e foi fundamental para a formação de entidades femininas, como, por exemplo, a CAMDE (Campanha Mulheres pela Democracia) que apoiou o golpe militar em 1964. Além da noção de mulher presente nas capas da revista chama atenção as representações de famílias norte-americanas, o que inclusive fica evidente em pequenos detalhes das imagens escritas em inglês. Desta forma o trabalho busca discutir a utilização da revista como braço ideológico da visão de mundo na qual essas entidades femininas estavam alicerçadas e que promoveram entre outros atos a “Marcha da família com deus e pela liberdade”. As revistas foram catalogadas em acervos particulares e depois adquiridas pelo artista. Assim, o trabalho sugere a catalogação das revistas como exercício de lembrar e perceber o quanto discursos atuais conservadores encontram ressonância na história brasileira.

Rafael Pagatini, A Família Cristã, 2016 (Divulgação)

Sobre o artista
Rafael Pagatini é mestre em poéticas visuais e bacharel em artes plásticas pelo Instituto de Artes da UFRGS. Seu trabalho faz uso, principalmente, de mídias associadas a linguagens da gravura e fotografia. Sua produção recente se caracteriza pela crítica da sociedade contemporânea, através da investigação das relações entre arte, memória e política. Pagatini é professor e pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo. Realizou exposições individuais e coletivas, tais como “Vira Lattes (2016)”, "Conversas com a Paisagem (Galeria Virgílio, 2013)", "Rumos Itaú Cultural (2013)", "Em Suspensão (Santander Cultural, 2012)". Possui obras em coleções públicas e privadas. Recebeu o Prêmio Energisa Artes Visuais, Bolsa Estímulo a Produção em Artes Visuais (FUNARTE), Bolsa Iberê Camargo - Ateliê de gravura e V Prêmio Açorianos deArtes Plásticas.

Sobre a Temporada de Projetos
A vocação experimental do Paço das Artes é constatada, principalmente, por meio da Temporada de Projetos, que foi criada com o objetivo de abrir espaço à produção, fomento e difusão da prática artística jovem. Concebida em 1996, a Temporada de Projetos teve sua primeira exposição realizada em 1997 e se tornou, ao longo dos anos, um rico celeiro para a cena da jovem arte contemporânea brasileira.

Anualmente, a Temporada abre uma convocatória nacional selecionando nove projetos artísticos e um projeto de curadoria para serem desenvolvidos e produzidos com o respaldo do Paço das Artes. Os selecionados recebem acompanhamento crítico, a publicação de um catálogo sobre suas obras e um cachê de exibição. Desde seu surgimento, quando ainda era bienal (tornando-se anual em 2009), o programa possibilita a emergência de inúmeros artistas, curadores e críticos, muitos deles presentes na cena artística atual.

Em 2014, o Paço das Artes lançou a plataforma digital MaPA, concebida por Priscila Arantes, que reúne todos os artistas, curadores, críticos e membros do júri que passaram pela Temporada de Projetos.

Rafael Pagatini, Manipulações, 2016 (Divulgação)

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Exposição: "Temporada de Projetos Paço das Artes - Fissuras", de Rafael Pagatini
Datas e horários: Abertura dia 2 de agosto, terça-feira, às 19h. Em cartaz até 4 de setembro de 2016. De terça a sábado, das 12h às 20h; domingo e feriado, das 11h às 19h.
Local: Paço das Artes no MIS | Av. Europa, 158 - Jardim Europa.
Entrada livre e gratuita.