VISUAL ARTS AGENDA

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Colour, Form, Light

Artists: Julien Porisse

Curator: Sandra Higgins

From 4/8 to 27/8

Galeria Rabieh Ver mapa

Address: Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 147 - Jardim America

Telephone: (11) 3062 7173

A Galeria Rabieh apresenta, entre os dias 4 e 27 de agosto de 2016, a primeira individual do artista francês Julien Porisse na galeria. O artista, que vive e trabalha entre Paris e São Paulo, exibe na mostra "Cor, Forma, Luz", que conta com a curadoria de Sandra Higgins, obras produzidas durante os dois últimos anos. A mostra possui entrada livre e gratuita.

Julien Porisse, Cromático no3, 2015 - acrílica e tecido sobre papel de 1000gs 100 x 80 cm (Divulgação)

Confira a seguir o texto da curadora sobre o trabalho de Porisse:

Na obra seminal de Anton Ehrenzwieg, professor de arte na Goldsmiths College, em Londres, A Ordem Oculta da Arte (1967), ele descreve os processos dinâmicos na mente de um artista no ato criativo e o papel do inconsciente nestes processos. Isto se verifica na criação de obras abstratas, tais como aquelas do artista Julien Porisse. Este processo de criação resulta no desenvolvimento de uma nova linguagem visual e requer uma nova forma de interpretar a mesma, para ser bem compreendida e apreciada. Produto da imaginação do artista usando apenas símbolos, formas concretas e cores, esta nova linguagem é vista, frequentemente, como medíocre ou infantil em sua execução e as suas representações simplórias, por não contar uma história (iconografia) que o espectador compreenda facilmente.
O historiador de arte alemão Wilhelm Worringer aborda a questão da resposta do público em relação às obras de arte em sua dissertação de 1908, Abstração e Empatia. Por exemplo, a resposta do público ao olhar para uma natureza morta de Cézanne seria de empatia, por causa dos objetos que lhe são familiares dentro da composição, como uma maçã ou uma laranja. Já diante de uma abstração o espectador pode experimentar uma sensação de caos... formas geométricas simples de linhas, círculos e a interseção de planos sem memórias familiares como referência, e nenhuma história para contar. Esse é um dilema de muitos pintores abstratos, que só podem contar consigo mesmos para vencê-lo. Para Worringer, a abstração é a primeira verdadeira expressão da intenção artística.
Intenção artística define a prática de Julien Porisse. Suas obras são uma autobiografia visual, culminando nas formas concretas e superfícies luminosas que habitam suas atuais pinturas, colagens e construções. Mesmo o que possa parecer um trabalho mais simples de arte para alguns tem a sua complexidade. E é fascinante examinar o que é a ordem oculta da arte nos trabalhos abstratos de Porisse, e como ele harmoniza o caos da abstração, trazendo ordem à aparente desordem. Para Porisse, não há nada pior do que a abstração comum (...) sem alma, sem motivo, vazia ... às vezes uma única cor pode ser incrível ou um Rothko, que te faz imaginar a história.

Julien Porisse começou na adolescência como um jovem pintor figurativo, filho de um pintor francês talentoso e de mãe irlandesa, vivendo em Montmartre, Paris. Formado tanto na França quanto na Inglaterra, tem passado seus últimos anos em viagens entre Paris e a sua segunda casa, em São Paulo. Desenvolveu um estilo geométrico de pintura, forte ainda que contemplativo, sendo influenciado por suas experiências e ambientes multiculturais. Pode-se considerar que seu estilo esteja entre o movimento neoconcreto, popular no Brasil entre 1959-1961 com o Grupo Frente, no Rio de Janeiro, de artistas como Lygia Clark e Hélio Oiticica (popular devido a seu racionalismo apolítico, não sugestionando significados ulteriores), e a abstração lírica da França, no sentido de um estilo lírico que se distancia dos movimentos cubistas e surrealistas que o precederam, e longe da abstração totalmente geométrica ou fria, seguindo as lições aprendidas com Kandinsky, vendo a abstração como abertura para a expressão pessoal.
Porisse diz: Eu sou influenciado primeiro por aquilo que me rodeia. Isso define as cores e a luminosidade do meu trabalho. Em Paris, por exemplo, minhas cores são mais terra, mais escuras, não tão luminosas mas com mais contrastes e choques, cores opostas ao invés de complementares. E depois vêm o subconsciente imagético. Qualquer coisa, desde prédios abandonados até um conjunto de palmeiras. Estas são as influências imediatas. As influências secundárias vêm da arte que vi, e que desencadeiam algo em mim. Pierre Soulages e o reflexo da luz em suas telas ou, ao olhar para uma bandeira de Jasper Johns, encontrar cartas ocultas não totalmente reveladas, emergindo da cera e da tinta. Digamos que eu seja um pós-concretista com um toque francês.

Mesmo sendo um admirador de muitos artistas contemporâneos e de mestres como Cézanne e Van Gogh, ele afirma que o passado deve ser evitado, mas as influências estarão sempre lá e talvez o melhor modo de tê-las é modernizando-as. O objeto, o sujeito, o estilo, que importância eles têm? A pintura morreu? Bem, certamente as pinturas e colagens de Julien Porisse não estão mortas e em seu trabalho atual o que importa é a tinta, a superfície tátil, como ela é aplicada e de como ela interage com ele através da textura, da luz e do confronto das formas. Luz e cor são fundamentais para o seu trabalho e, talvez, a importância da luz para ele venha da experiência que teve quando era um garoto de 6 anos, ao sofrer um acidente em uma fazenda na Irlanda, e perder a visão do olho esquerdo. Em 1974, aos 12 anos de idade, seu olho direito começou a falhar também e ele ficou cego por seis meses. Não podia sair de casa, porque a luz era muito forte, e teve que ser trazido aos poucos de volta para a luz. Este trauma manifesta-se em seu trabalho através de alvos em círculos concêntricos, carregados das cores vibrantes de sua paleta. Sonia Delaunay, também uma inspiração para Porisse, chamou seus trabalhos orfistas de prismas elétricos dos ​​feixes de luz dos postes parisienses. Os orfistas dispensavam temas reconhecíveis e confiavam na forma e na cor para transmitir significado, lição que Porisse levou a sério.

Hoje em dia, Porisse enxerga bem com o olho direito, mas o conflito entre o realismo e a abstração ocupam sua mente. Por outro lado, sua imaginação é revigorada na metamorfose de uma ideia de realidade até a abstração, expandindo, assim, o escopo de seu trabalho. Muitas vezes ele começa sem nada além do que uma ideia geral, vinda talvez de um incidente chocante ou de uma visão bela da natureza. Inicia com uma cor e utilizando somente duas ou três áreas (como alguém começaria uma pintura realista, com o céu, o solo ou a sombra), em seguida, ele cria uma estrutura para o trabalho em cinza escuro, como se fossem sombras para edifícios, então adiciona curvas, alvos e marcas que tenham um significado especial para ele... asas de avião ou fuselagens que o fascinam... O fundo é a última coisa que ele pinta, às vezes deixando marcas e pequenos borrões, para dar vida ao trabalho e afastar-se da abstração totalmente rígida. Este é o gesto do artista, a marca física de que o criador da obra estava lá, sensível e intuitivamente, acrescentando seu tipo de "assinatura".
O ato de intenção de Porisse resulta num conjunto de obras ao mesmo tempo completamente pessoais, retiradas de suas experiências de vida e de sua instrução, e universais em seu apelo como objeto de grande beleza, preenchidas com harmonia de composição e justaposições de cores que levam o olho a uma viagem para dentro e para fora, ao redor e sobre a tela. Há ambiguidade de sobra envolvendo cada espectador nesta viagem de descoberta de uma possível ideia/imagem. Será que irão descobrir o significado nesta língua visual ou isso realmente importa, se a apreciação pode ocorrer em outro nível, sem significado? Isto é justamente o que se exige ao se apreciar a arte abstrata e o trabalho de Porisse, tempo para se dar uma olhada adequada. Não faça perguntas e apenas desfrute a viagem. Metamorfose é o nome do jogo e o prêmio do vencedor é a harmonia alegre e viva que irradia e ressoa da imagem resultante.

Sandra Higgins é conselheira de arte independente e curadora em Londres, Reino Unido.

Julien Porisse, Ponto vermelho e círculo vermelho, 2016 - técnica mista sobre tela, 195 x 300 cm (Divulgação)

serviço
Exposição: Cor, Forma, Luz", de Julien Porisse com curadoria de Sandra Higgins.
Datas e horários: Abertura dia 4 de agosto, quinta-feira, às 19h. Em cartaz até 27 de agosto de 2016. De segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábados, das 11h às 17h.
Local: Galeria Rabieh | Al. Gabriel Monteiro da Silva, 145 - Jardins.
Entrada livre e gratuita.