AGENDA DAS ARTES

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TIDE_Cota Zero

Artistas: Tide Hellmeister

Curadoria: Paulo Miyada

De 20/7 a 31/10

SESC Bom Retiro Ver mapa

Endereço: Alameda Nothmann, 185 - Bom Retiro

Telefone: (11) 3332-3600

O design da arbitrariedade na exposição “TIDE_Cota Zero”; Com obras dos anos 1960 e 1970 do artista Tide Hellmeister, a exposição no SESC Bom Retiro traz o maior legado da primeira fase do artista, que emprega a colagem e se apresenta como um exemplo excepcional no arco de implantação do design moderno no Brasil.

Entre 21 de julho e 31 de outubro o Sesc Bom Retiro recebe a exposição “TIDE_Cota Zero”, apresentando obras do artista Tide Hellmeister, com curadoria de Paulo Miyada. Apresentando 24 obras originais de colagem, design de livros e projetos gráficos para jornais e revistas, a exposição evidencia os primeiros trabalhos do artista paulistano Tide Hellmeister (1942-2008) nas décadas de 1960 e 1970.


Tide Colagem.

Sua produção no universo gráfico demonstra familiaridade com princípios modernistas como a colagem, o alinhamento e o movimento entre os elementos visuais – além da capacidade de tratar o espaço em branco como um elemento significativo e estruturante da composição, com o exercício pleno de sua arbitrariedade gráfica em arquiteturas gráficas e construções gráficas. Alimentado por usos experimentais da colagem, Tide respondeu a seu tempo sem submeter-se a ele. Arriscou remeter a estilos tipográficos que teoricamente haviam se tornado obsoletos, para então recortá-los e recombiná-los como textura sobre a folha em branco; torceu o texto e combinou-o com traços lúdicos feitos à mão; incorporou símbolos e gestos que só foram aceitos inteiramente pelas escolas de design décadas depois.


Tide Colagem.

A exposição, curada por Paulo Miyada, reúne materiais nunca exibidos como conjunto – navegando entre arte e design – para refletir sobre como o processo criativo de Tide Hellmeister pode, tão precocemente, abrir alternativas ao desenho moderno enquanto este ainda estava em consolidação no país. É uma oportunidade para conhecer os desafios do design gráfico e suas relações com a história da arte, sobretudo no recurso que mais encantou Tide por toda a sua vida – a colagem.

Relativamente autodidata, Tide entrou em contato com seus ofícios pela prática com mestres diversos, como o pintor João Suzuki, seu primeiro professor de pintura (por pouco tempo), o cenógrafo Cyro Del Nero, seu primeiro chefe (na TV Excelsior) e o editor Massao Ohno, que, ainda na primeira metade dos anos 1960, confiou a ele seus primeiros projetos gráficos (em um contexto de pioneirismo editorial). Assim, aos vinte e poucos anos, Tide havia se familiarizado com princípios modernos da arte e do design – ainda que por caminhos pouco usuais e nada formais.


Tide Colagem.

Muitas das colagens apresentadas foram expostas apenas uma vez, na época em que foram produzidas. Agora, reunidas em conjunto, atestam a inventividade do artista e sua estreita relação com a arte e o design como campos que se retroalimentam.

Em 1961, o livro “Eu sou Pelé” foi a primeira parceria editorial entre Tide e Del Nero. A capa do livro resgata a presença física e habilidades do jogador, imprimindo a sola do pé direito como símbolo de sua destreza. Em anotação em seu diário, Tide relata sua participação no livro fazendo uma ressalva à assinatura de Del Nero: a autoria da capa seria dele mesmo, assim como o pé nela estampado.


Tide Colagem.

A aproximação com o editor Massao Ohno deu-se a seguir, junto ao grupo de artistas revigoraram o modo de composição dos livros no início dos anos 60, desenvolvendo um estilo editorial experimental, fluído e sem regras rígidas. Com publicações voltadas ao teatro, cinema e literatura, a iniciativa marcou o meio editorial da época por sua ousadia e pelo cuidado com todos os detalhes envolvidos na produção dos livros. 

Esse foi um fator determinante no princípio de sua trajetória: produzir muito em pouco tempo no contexto experimental da Editora Massao Ohno. Primeiro, a fluidez dos formatos e padrões nos primeiros anos da editora (até a forma de apresentar o nome da editora mudava radicalmente de uma publicação para a outra) exigiu do então jovem artista uma enorme variação de soluções gráficas, muitas vezes tendo a colagem como fator dinâmico da apresentação do texto e do projeto visual como um todo. Depois, o zelo quase artesanal na criação de edições interessantes, combinado à simplicidade dos meios da editora, fazia com que muitas das soluções gráficas nascessem do esforço de Tide em recombinar os materiais e processos disponíveis na própria gráfica. Tem-se aí o ambiente ideal para que cresçam os princípios da arbitrariedade, da espontaneidade e da inteligência processual que distinguem o conteúdo desta exposição.


Tide Colagem.

Nas primeiras publicações que realiza como “planejador gráfico” na editora, Tide demonstra traquejo no manuseio de seus princípios de diagramação, em que elementos compositivos se articulam em uma malha ortogonal implícita, desenvolvida através de alinhamentos, proporções, ritmos e sugestões de movimento. Além disso, o então designer iniciante demonstra considerar o espaço branco da folha de papel como elemento gráfico significativo e estruturante da composição.

Caso exemplar, Cinema Britânico, editado em 1963, parte de um conjunto de publicações da Massao Ohno com as Cinematecas do Rio e São Paulo, a exploração imagética da tipografia que Tide realiza permite que ele trabalhe com ampliações e composições mais livres. Além de reproduzir imagens e ilustrações de época, o artista gráfico supre lacunas e cria associações ao utilizar trechos da literatura britânica com referências a figuras emblemáticas como o rei Henrique VIII, fundador da Igreja Anglicana.


Tide- Labririnto Miolo.

Tide não se valia de um padrão estabelecido, tendo em suas publicações possibilidades expressivas variadas atentas a uma coerência a cada contexto. No âmbito técnico, o designer se valeu da composição mecânica em linotipia, da serigrafia e, além, da impressão offset. Em alguns de seus trabalhos, as imagens aparecem autônomas, transplantadas para o interior do livro, sem uma vinculação direta com a tipografia. Em outras, as ilustrações constroem com a tipografia um todo imbrincado, muitas vezes trazendo fragmentos de texto descolados da narrativa central do livro, privilegiando a palavra e a letra como formas ou como exemplares e referências a um estilo. No Tanque de Bestesda, 1963, percebe-se uma profícua criação de imagens por meio da recombinação e edição de elementos por procedimentos de colagem e reprodução técnica, somados a um uso de diferentes papéis.


Tide Colagem.

A ilustração hors-texte — aquela que não representa diretamente o conteúdo do texto, mas cria uma justaposição com ele — foi um expediente comum na produção de Tide Hellmeister. As ilustrações extra-texto são, inclusive, o destaque do trabalho gráfico em Antecipação (1963), livro de autoria de Ida Laura, assinado também pelo artista. Nele Tide empregou técnicas de colagem, eixo determinante de sua produção, trazendo a junção de fragmentos de imagens impressas e sobreposições. A fim de compor duplas de páginas independentes do corpo de texto, Tide incorporou à publicação texturas próximas da fotogravura, aliadas a uma escolha cromática que conferia unidade ao todo.

Um dos gestos mais marcantes da publicação, a inserção de fragmentos de papéis e superfícies rasgados, explicita a intenção em intervir manualmente nos materiais que elenca e, com isso, criar um elemento compositivo estruturante das páginas. Muitas vezes marcado por um campo negro, os rasgos ora aludem a camadas sucessivas, ora delimitam os limites e subdivisões do campo do papel. Executando livros de vanguarda como capista e programador visual na Massao Ohno, foi premiado na Bienal do Livro do México de 1964.


Tide Colagem.

O desenvolvimento gráfico e na diagramação de jornais diários, com destaque para o Última Hora e o Jornal da Tarde é um outro conjunto de experiências. Pela natureza desses veículos, é difícil discriminar a autoria de Tide em diagramações específicas, mas é preciso destacar seu envolvimento com outro espaço de inovação daquele período. Fundado em janeiro de 1966, o Jornal da Tarde conquistou espaço na história da imprensa, graças à sua ruptura radical com os padrões jornalísticos até então vigentes no País; arriscando assimilar linguagens modernas em todos os aspectos de sua produção, da pauta ao texto, passando pela diagramação e apresentação. Projeto gráfico audacioso, com maior presença e autonomia da fotografia, fotos sangradas na página ou impressas em página inteira, apenas com o título do jornal no cabeçalho, marcavam o ingresso definitivo das imagens nos jornais diários. Tide Hellmeister integrou a equipe de jovens profissionais na implementação do novo projeto visual como noticiarista ediagramador desde a primeira edição do jornal.

No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, ilustrou a coleção de Graciliano Ramos para a Editora Martins, Brasiliense e Cia. Melhoramentos. Colaborou com o Centro de Artes Novo Mundo, na execução de catálogos de arte. Estes trabalhos lhe valeram o prêmio de melhor programador visual de 1973, categoria de Artes Visuais, conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte.


Tide Colagem.

No princípio década de 1970, como diretor de arte no SESC (um cargo que ainda estava em formulação, já que as áreas de comunicação e design da instituição passavam por pleno processo de crescimento e consolidação - o que envolvia a contratação do designer-artista), Tide criou o novo projeto gráfico da revista “Problemas Brasileiros”.
A revista ganhou novo formato e conteúdo mais jornalístico, expandindo seus tópicos para reportagens sobre cultura, educação e outros âmbitos. Tide foi diretor de arte da revista até 1978. Nesse período, Tide assinou capas, ilustrações de matérias.

Suas primeiras obras de colagem apresentadas na exposição são também da década de 1970. Em sua produção gráfica a colagem sempre operou como o recurso recorrente e multiforme que não deixa que sua linguagem chegue a coincidir integralmente com os princípios do design moderno. Já em sua produção plástica, é a colagem que o mantém particularmente distante do campo da pintura, pois impede que se configure totalmente um espaço pictórico. O que isso quer dizer? Que o espaço vazio na obra plástica de Tide está mais perto do campo gráfico da folha de papel da colagem ou do impresso do que da espacialidade virtual da pintura. Por isso, talvez, sejam tão frequentes as composições centralizadas, dispostas no espaço vazio (branco ou preto) e estruturadas por uma linha diagonal, que organiza a página ao atravessá-la de fora a fora. São obras fascinantes e repletas de sugestões narrativas que o público pode desdobrar por meio de sua imaginação visual.


Tide Colagem.

O vídeo da exposição recupera trechos de entrevista com o artista em seu ateliê e traz depoimentos dos artistas Guto Lacaz, Manuela Eichner e do grupo Bloco Gráfico sobre a trajetória do artista, entrevista com o Danilo Santos de Miranda, diretor do SESC, onde Tide trabalhou, e André Hellmeister, filho do artista e coordenador da exposição.

Serviço:
TIDE_Cota Zero
Espaço de exposição. 2º andar.
Grátis.
Abertura: 20/7, às 19h.
De 21/7 a 31/10/2017.
Local: Sesc Bom Retiro