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Retrato Popular

Artistas: Mestre Julio, Tiago Santana, Tonho Ceará e Luiz Santos

Curadoria: Rosely Nakagawa, Valeria Laena e Titus Riedl.

De 5/5 a 31/7

Sesc Belenzinho Ver mapa

Endereço: Rua Padre Adelino, 1000 - Belenzinho

Telefone: (11) 2076-9700

Um retrato pode representar uma personalidade, um estilo, a beleza e a religião como parte da cultura de um povo e a representação de pertencimento. É o recorte que pausa o tempo e oferece aos admiradores uma amostra – fictícia ou real – de um momento especial. Para celebrar esse tipo de registro, que serve tanto como um modo de preservação da história e da memória, como também da criação de uma realidade, o Sesc Belenzinho promove a exposição "Retrato Popular", que abre no próximo dia 5 de maio e fica em cartaz até 31 de julho de 2016, com entrada franca.

Tiago Santana (Divulgação)

Sob curadoria de Rosely Nakagawa, Valeria Laena e Titus Riedl, a mostra reúne obras do acervo do Memorial da Cultura Cearense – Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, de Fortaleza (CE), e de colecionadores particulares, que reconstroem a história da fotografia popular, não só por meio de suas imagens, como também pelas câmeras e artifícios utilizados desde o início do século XX.

Fazem parte da exposição coleções de monóculos, ex-votos fotográficos, câmeras de lambe-lambe, os tradicionais cavalinhos e charretes para fotografias de crianças e moldes e retratos pintados por Mestre Julio, um dos maiores nomes da fotopintura brasileira. Alguns materiais do estúdio dele, como antigas fotografias restauradas e moldes que ensinam seus aprendizes a como fazer suas pinturas, também fazem parte da mostra.

Além disso, há também fotografias, gravuras, esculturas em madeira e argila e lonas pintadas por profissionais que se dedicam ao ofício, como Tiago Santana e Tonho Ceará, ambos de Juazeiro do Norte, Luiz Santos, de Recife, e o próprio Mestre Julio, de Fortaleza. Outros registros – de fotografias, muitas de personagens anônimos – fazem parte da coleção de um dos curadores, pesquisador e professor da Universidade Regional do Cariri, Titus Riedl.

Mestre Julio, fotopintura (Divulgação)

A proposta da exposição "Retrato Popular" é mostrar a importância dessa tradição comum em todo o Brasil, que é considerada um patrimônio da história da fotografia regional e parte relevante do registro de cidadãos de todas as classes sociais. Essa fotografia popular que, ao longo dos anos, tornou-se cada vez mais rara nas feiras passou a integrar a arte contemporânea, alcançando um status hoje considerado cult.

“A fotografia popularizou o retrato nas camadas sociais que emergiram na Revolução Industrial e se retrataram para se perpetuar como a nova classe ascendente”, diz Rosely. “Até então, apenas os nobres podiam ser retratados por um pintor que cobrava muito caro por seus serviços. Eram retratos que ostentavam a posição social e o poder do retratado por meio de roupas, adereços, objetos ao fundo (cortinas, tapetes, móveis, espelhos, etc.). A partir da descoberta do daguerreótipo, fazer um retrato ficou mais simples, necessitando apenas de uma câmera fotográfica num estúdio com iluminação adequada e um laboratório”, completa.

No Nordeste é ainda muito comum a criação de um novo contexto em torno da pessoa fotografada, que difere da realidade. Mestre Julio é o especialista nisto, que até os anos 90 utilizou tintas para suas obras, mas agora faz uso do Photoshop. Entre os retratos dele que serão exibidos estão o do médico identificado como Dr. Hermínio, que queria ter sido mecânico e pediu para ser retratado junto a alguns carros, usando uniforme e portando algumas ferramentas, e o de um menino que se veste como formando universitário e pede para que a família seja inserida na foto. Há também obras que marcam a questão da hegemonia branca e hierárquica na história brasileira, como a de Tercília da Silva, que pediu para que pintassem seus olhos na cor azul e fosse representada como uma rainha. 


Tercília da Silva (retrato acervo pessoal) e Tercília da Silva (fotopintura Mestre Julio Santos) - (Divulgação)

Tiago Santana é o responsável pelos flagrantes da área de peregrinação em Juazeiro do Norte, enquanto Tonho Ceará e Luiz Santos são coautores de retratos de povos nômades – indígenas, circenses, ciganos, sem-terra. As imagens, tanto de Tiago quanto de Tonho e Luiz, são em preto e branco.

“Enquanto montagens visuais, incorporam uma série de arranjos anteriores e posteriores à ‘captura’ da cena em si, convidando-nos a refletir sobre as imbricações entre fato e ficção”, afirma Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo.

Na programação ainda estão previstas oficinas, projeções e a interação do público por meio de autorretratos (as chamadas “selfies”) com o uso de celulares com câmeras, atualizando o conceito de retrato popular. Para isso, foi especialmente criado um cenário que reproduz o ambiente de uma praça de uma pequena cidade do Nordeste.

Também serão promovidos encontros e workshops com a participação dos curadores e fotógrafos participantes da mostra, com exceção de Mestre Julio que, por problemas de saúde, estará impossibilitado de comparecer ao evento.

Tiago Santana (Divulgação)

Sobre os artistas
Mestre Julio
Nasceu em 1944 em Fortaleza, onde vive e trabalha. Foi na Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), que reunia artistas como Aldemir Martins, Mario Barata e Estrigas, além de seu próprio pai, Didi, que Julio Santos começou a trabalhar, aos 12 anos. No início da década de 70, contribuiu para a reativação do Foto Paris, importante ateliê de fotopintura e estúdio fotográfico em Fortaleza. Em seguida, juntou-se a seu irmão Joaquim e a Antenor Medeiros (parceiro de seu pai Didi na fundação do Áureo Studio) para recuperar a sua oficina, formando a própria equipe de profissionais com garotos de rua.

Poucos são os estúdios que ainda trabalham com retoque e restauro, como o Áureo Studio de Mestre Julio. Para superar as limitações técnicas, ele se atualizou aprendendo a trabalhar com programas digitais de reprodução e tratamento da imagem, ao lado de sua filha Rebeca.

Julio Santos já expôs seu trabalho no exterior, como nas mostras coletivas Europália (Bruxelas, 2011); em Santo Domingo, na República Dominicana (2012), e em Montevidéu (2012), no Centro de Fotografia. Além de ter participado de outras mostras individuais, como na Choque Cultural, por ocasião do lançamento de seu livro, resultado do edital da FUNARTE, em 2010; e na Pinacoteca do Estado em 2012, com a mostra Interior Profundo.

Tiago Santana
As fotografias desta exposição são a essência do trabalho do fotógrafo Tiago Santana. Atento às cenas do cotidiano de Juazeiro do Norte, ele próprio faz parte dela, desde o início de sua carreira. Antes mesmo, quando ainda garoto e fazia sessões de cinema para as crianças com o projetor de super 8mm do pai, mostrava-se fascinado pelas imagens projetadas no escuro e pela magia despertada em torno delas.

Em 2001, publicou o livro Benditos, apresentando o resultado de 10 anos de envolvimento com os romeiros da região do Crato, onde nasceu em 1966. Ele trabalhou exclusivamente com imagens em preto e branco para reforçar o mistério daquele lugar.

Tiago Santana atua como fotógrafo desde 1989, desenvolvendo ensaios pelo Brasil e América Latina. Sua obra integra importantes acervos e coleções de fotografia. Em 2011 foi o segundo brasileiro a ter seu trabalho publicado na coleção de fotografia francesa Photo Poche. Em 2014, publicou o livro Céu de Luiz em parceria com o jornalista Audálio Dantas. Organizou diversas exposições e festivais de fotografia no Brasil. É fundador da Editora Tempo d’Imagem.

Tonho Ceará
Nascido no Juazeiro do Norte, Tonho Ceará mora em Recife desde a década de 1980.

O fotógrafo Luiz Santos encontrou “Seu Ceará” pela primeira vez no final da década de 1990. Na época, ele tirou retratos de Luiz Santos com sua câmera-laboratório, na praça Dom Vital, próximo ao Mercado de São José. A dupla Tonho Ceará e Luiz Santos promoveu uma intervenção em fotografia com um trabalho nomeado como A Volta do Lambe-lambe, que consistiu em realizar viagens entre o Recife (PE) e a cidade do Juazeiro do Norte (CE) para fazer retratos do povo, utilizando a câmera lambe-lambe como ferramenta.

De agosto de 2006 até fevereiro de 2008, a dupla visitou vários municípios de cidades e povoados do Agreste ao Sertão. Passando por comunidades indígenas até se depararem com o que foi considerado o foco do trabalho: grupos que têm em comum a característica de se deslocarem com certa frequência. Daí, registro de indígenas, ciganos, circenses, sem-terra, romeiros e bacamarteiros.

Luiz Santos
Pernambucano, tem 56 anos e é fotógrafo desde 1985. Como ensaísta documental, ele publicou trabalhos em várias mídias, nacionais e internacionais. Tem ampla atuação no campo da educação para o olhar, principalmente junto a pessoas de áreas periféricas.

A partir de 2005, iniciou o seu mergulho radical no retrato fotográfico, quando idealizou e dirigiu o A Volta do Lambe-lambe, projeto que possibilitou ao retratista Tonho Ceará ganhar o Prêmio Porto Seguro de Fotografia 2008, categoria Brasil. Este projeto também resultou no média metragem Cinema de Dois Tões, sua incursão pelo campo da imagem em movimento.

Dirigiu recentemente o curta metragem Quantas Cabeças Cabem num Espelho?, sobre suas experiências com arte junto a pacientes com problemas de saúde mental.

Foi convidado para participar do Pingyao International Photography Festival - PIP 2010, na China, onde esteve em setembro daquele ano, como parte da coletiva brasileira intitulada Uncertain Brazil.

Em 2016 criou, juntamente com outros cinco artistas, o coletivo Lambe-Day. Iniciou em 2016 uma experiência inovadora em Recife na área de saúde mental, quando fechou acordo com o Espaço Rizoma para uma residência artística de um ano no seu CAPS Girassol (facebook.com/ohappydaresidencia).

Tonho Ceará e Luiz Santos, Bacarmateira (Divulgação)

 

serviço
Exposição: "Retrato Popular", com trabalhos de  e curadoria de Rosely Nakagawa, Valeria Laena e Titus Riedl.
Datas e horários: Abertura dia 5 de maio (quinta-feira), às 20h. Em cartaz entre os dias 6 de maio e 31 de julho de 2016. De terça a sábado, das 10h às 21h; domingos e feriados, das 10h às 19h30.
Local: Sesc Belenzinho | Rua Padre Adelino, 1000 - Belenzinho.
Entrada gratuita.