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Ocupação Ilê Aiyê

Artistas: Ilê Aiyê

Curadoria: Itaú Cultural e Ilê Aiyê

De 3/10 a 6/1

Itaú Cultural Ver mapa

Endereço: Avenida Paulista, 149 - Cerqueira César

Telefone: (11) 2168-1777

O Itaú Cultural inaugura no dia 3 de outubro (quarta-feira), às 20h, a "Ocupação Ilê Aiyê", 42ª exposição da série realizada pelo instituto, que agora reverencia a atuação cultural e social do primeiro bloco afro do Brasil e seus 44 anos de atuação. Com curadoria do Itaú Cultural em parceria com o Ilê, a mostra é composta por fotos, indumentárias, depoimentos, tambores, tecidos originais, troféus e uma linha do tempo com as padronagens dos tecidos idealizados nos 44 carnavais, divididos em 4 eixos, cada um guiado por uma cor, uma música e um aspecto a ser destacado do Ilê Aiyê. Em cartaz até 6 de janeiro, a ocupação tem entrada livre e gratuita.

Mirinha Cruz e Jéssica Nascimento. Rainhas da Beleza Negra 1976 (esq) e 2018 (dir). Foto: André Seiti.

A série "Ocupação" realizada pelo Itaú Cultural busca reavivar trajetórias artísticas e culturais fundamentais à percepção do Brasil e referenciais para as mais novas gerações de artistas. Na atual edição, a trajetória do primeiro bloco afro do Brasil e atração consagrada do Carnaval de Salvador é contada. O Ilê Aiyê nasceu para combater o racismo e o silenciamento dos negros que eram recusados no circuito oficial do Carnaval baiano e chegou a ser classificado de racista por não aceitar brancos. Passados 44 anos, eles mantêm o preceito de desfilar apenas com negros e continuam questionando o racismo e o emudecimento dos negros na sociedade brasileira.

Quatro cores definem cada um dos eixos principais da "Ocupação Ilê Aiyê". Primeiro, a cor preta, da pele e da história dos homenageados. Em seguida, a vermelha representando o sangue derramado na luta pela libertação. Depois, vem a amarela, símbolo da riqueza cultural e da beleza negra. Encerra com a cor branca, da paz e da cura. Todas elas estão representadas na sua identidade visual, desenhada pelo artista Jota Cunha: uma máscara africana com quatro búzios abertos formando uma cruz na testa. O autor a chamou de perfil azeviche.

A exposição tem curadoria dos Núcleos de Comunicação e de Música do instituto em parceria com o Ilê Aiyê e apresenta muito mais do que se vê uma vez por ano, durante o Carnaval, nas telas da TV ou nas ruas de Salvador. Além da mostra, a "Ocupação Ilê Aiyê" é composta de site, publicação impressa e programação em sinergia com o tema - como oficinas e outras atividades que acontecem no instituto ao longo de todo o período expositivo e apresentações no Auditório do Ibirapuera, nos dias 5 e 6 de outubro. A mostra ainda conta com a sala interativa dos tambores, onde uma projeção de alguns dos mestres do Ilê explica a sonoridade de cada instrumento, que poderá ser manuseado pelo público.

Detalhe do Carnaval 2018. Foto: Richner Allan.

A Ocupação
Na entrada da mostra no Itaú Cultural, a voz de Luedji envolve o visitante com a música Ilê de Luz cantada a cappella. O espaço é estreito e ocupado por telas que reproduzem rostos silenciosos de moradores do Curuzu, onde nasceu e vive o Ilê Aiyê.  Eles estão em três projeções e uma quarta exibe tradução em Libras, a Língua Brasileira de Sinais. É o primeiro eixo e o que conta o início de tudo. Nele, também se ouve em paisagem sonora, o barulho do mar e nomes de referência de personalidades e pessoas que lutaram e lutam pelo fim do racismo.

Fotos em tecido apresentam detalhes do terreiro Ilê Axé Jitolu e de Hilda Dias dos Santos (Salvador, 1923-2009), a Mãe Hilda Jitolu, ialorixá (sacerdotisa líder em iorubá). Ela fundou o bloco ao lado do filho Antonio Carlos dos Santos Vovô. Nascido em 1952, igualmente na capital baiana, hoje ele é presidente do Ilê Aiyê, uma lenda do Carnaval da Bahia e importante personalidade do movimento negro brasileiro.

Mãe Hilda e Vovô, 1999. Foto: Mario Cravo Neto.

Depois dessa passagem se acessa o segundo eixo da mostra – o vermelho. Chama-se O Mais Belo dos Belos e invoca a luminosidade do terreiro de Candomblé, da religião e da cultura negra. O visitante conhece o início dessa história e também a rua do Curuzu, berço do bloco e hoje um bairro de Salvador.

Este núcleo traz a alegria do Carnaval e de todas as crenças dos membros do Ilê. Uma tela apresenta depoimentos de integrantes do próprio bloco – Vovô e sua irmã Hildelice dos Santos – e das cantoras Daniela Mercury e Margareth Menezes, entre outros. Outra projeção, maior, mostra o bloco no Carnaval de 2018. Os audiovisuais são projetados em tambores que parecem emergir da parede.

Neste eixo, encontram-se documentos originais, os primeiros tecidos desenhados para as fantasias e algumas delas vestidas em manequins criados a partir da referência das Abayomis – bonecas negras feitas de tecidos e arrematadas com nós – em tamanho natural. São três: uma de Deusa eleita, outra de dançarina de bloco e mais uma masculina. Também apresenta croquis de carros alegóricos, troféus, fotos antigas e recortes de jornais por meio dos quais se conhece o início da história desse bloco e como ele foi recebido.

Dete Lima com detalhe de tecido Ilê Aiyê 2018. Foto: André Seiti.

Do vermelho se passa para o amarelo, ouro, coração da exposição e eixo da beleza. Apresenta o concurso da "Noite da Beleza Negra", que todos os anos elege a mulher mais carismática da comunidade, a qual assumirá o desfile de Carnaval como rainha, a Deusa do Ébano. O espaço traz referências futuristas, para mostrar a padronagem dos tecidos idealizados em cada um dos 44 carnavais da história do Ilê Aiyê, compondo uma linha do tempo. Uma vitrine mostra adereços originais de cabeça, pescoço e braço das mulheres do Ilê e do Curuzu.

Neste eixo, são apresentadas mais projeções, como uma em que dançam juntas Mirinha Cruz, a primeira rainha, eleita em 1976, e Jéssica Nascimento, rainha de 2018 já com o título de Deusa do Ébano. Tem também a exibição de uma entrevista de Mãe Hilda dada à TVE, baiana, nos anos 70. Ainda neste núcleo, uma mesa interativa mostra uma linha do tempo com a história do bloco.

Por fim, a Ocupação Ilê Aiyê é encerrada pelo eixo branco, o da cura, da paz e da música Negrume da Noite. É o núcleo que apresenta o bloco além do carnaval com ações e projetos afirmativos, como a Band’Erê, formada por alunos jovens que depois sobem para o bloco; a Escola da Mãe Hilda e os Cadernos de Educação, que vêm sendo produzidos por eles, desde 1995, no Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê, e utilizados também na rede escolar pública fora da comunidade.

Neste núcleo, tem a sala dos tambores interativa com o público. Nela, uma projeção de Mestre Kehindê Boa Morte explica a sonoridade de cada instrumento da Band’Aiyê (do Ilê Aiyê), as diferenças entre o tambor Caixa, Repinique, Surdo, Martelo e ensina a tocá-los em instrumentos físicos à disposição do público. Este espaço apresenta, também, os dois únicos discos LPs e dois CDs lançados pelo bloco – disponíveis digitalmente para serem ouvidos. Em outras telas, aparecem mais depoimentos de integrantes do Ilê, como Arany Santana e Maria de Lourdes Siqueira, Vivaldo e Val Benvindo. A mostra encerra com a fala de Tia Luiza. Ela tem 103 anos e é a moradora mais antiga do Curuzu.

Dançarinas do Ilê Aiyê, Carnaval de 2018. Foto: Richner Allan.

Serviço
Exposição: "Ocupação Ilê Ayê"
Datas e horários: Abertura dia 3 de outubro (quarta-feira), às 20h. Em cartaz até 6 de janeiro de 2019. De terça a sexta-feira, das 9h às 20h (permanência até as 20h30); sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h.
Local: Itaú Cultural (Piso térreo) - Avenida Paulista, 149 (estação Brigadeiro do Metrô) - Cerqueira César, São Paulo.
Entrada livre e gratuita.