AGENDA DAS ARTES

Voltar

Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência

Artistas: Maria Auxiliadora

Curadoria: Adriano Pedrosa e Fernando Oliva

De 10/3 a 10/5

MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand Ver mapa

Endereço: Avenida Paulista, 1578

Telefone: 11 3251-5644

Na mostra "Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência", que o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - MASP exibe entre os dias 10 de março e 10 de junho de 2018, são apresentadas 82 obras da mineira que cresceu em São Paulo, em uma família de artistas brasileiros autodidatas e integrantes do movimento negro. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, e Fernando Oliva, curador do museu, a mostra busca renovar o interesse na original produção da artista através de novas leituras de sua vida e obra, ultrapassando os rótulos que frequentemente a associaram à arte denominada "popular", "primitiva", "naïf" ou "afro-brasileira". A abertura acontece no dia 9 de março, as 20h, junto à exposição "Imagens do Aleijadinho" e ambas permanecem em cartaz simultaneamente, dando início ao ciclo de exposições de 2018 do museu, dedicado às histórias afro-atlânticas. A entrada é gratuita às terças-feiras e a mostra é livre para todos os públicos.

Maria Auxiliadora da Silva, Mobral, 1971. 60 x 120 cm. Coleção de Paulina e Moises Pinsky. (Foto: Jorge Bastos)

A individual de Maria Auxiliadora (Campo Belo, Minas Gerias, 1935 - São Paulo, 1974) está organizada em seis núcleos temáticos que agrupam as obras tendo como base os temas mais comuns de sua produção: "Autorretratos",  "Casais", "Interiores", Manifestações populares", "Candomblé, umbanda e orixás" e "Rural". Em seus trabalhos Auxiliadora confere protagonismo ao negro — que é sub-representado na história da arte brasileira em relação ao seu peso cultural e social, ou então tem sua presença personificada em tipologias fixas, como a do escravo ou do trabalhador manual. Na tela de Mobral (1971), por exemplo, vemos um professor negro à frente da classe ministrando aulas.

Segundo Oliva, “a exposição privilegia trabalhos nos quais uma postura combativa e de recusa se manifesta de formas diversas, tanto no plano das próprias telas, com uma figuração inusitada, como na resistência da artista a aprender a pintar, afastando-se do elitismo do bom gosto”.

Outro tema recorrente na obra de Auxiliadora foi a morte, especialmente em seus últimos dois anos de vida, após descobrir um câncer e precisar passar por sucessivos tratamentos e operações. Durante esse doloroso processo, a artista representou a si mesma em meio a cenas no leito de morte, em que aparece rodeada dos familiares, recebendo a extrema-unção, como em Sem título (Última unção) (1973); em seu velório, vestida de noiva, como em Velório da noiva (1974), do acervo do MASP; e já no céu, em Autorretrato com anjos (1972), em que surge diante de um cavalete, pairando, cercada por anjos que sustentam suas telas, pincéis e tubos de tinta.

Maria Auxiliadora da Silva, Autorretrato com Anjos, 1972. 63,5 x 45 x 3 cm. Coleção Silvia e Mario Gorksi. (Foto: Jorge Bastos)

Estilo e técnica
Maria Auxiliadora utilizou diversos materiais, como óleo, guache e acrílica, em suportes variados, como tela, cartão e chapas de madeira. Suas composições têm cores vibrantes, com uso recorrente de padrões geométricos. Nota-se uma decisiva recusa ao uso da perspectiva, por exemplo, em A preparação das meninas (1972), no qual a parede do banheiro é representada com uma padronagem de pequenos quadrados verdes sob fundo preto, enquanto o espaço do chão é sugerido a partir da mudança de padrão para losangos pretos e brancos. Além disso, a artista reproduzia texturas de tecidos e rendas, que incorporava em suas telas inspirada pelos pontos que aprendeu a bordar com sua mãe, Maria de Almeida, também artista.  

Auxiliadora desenvolveu ainda uma técnica própria para representar volumes de partes do corpo, como cabelos, nádegas e seios. A artista agregava tinta a óleo, mechas do próprio cabelo e uma massa plástica usada para reparos domésticos, aplicando a mistura nas telas e obtendo assim o típico efeito de alto-relevo que se tornou marca de sua produção. Tal recurso pode ser visto em obras como Velório da noiva (1974), A preparação das meninas (1972) e Banhistas (1973).

Maria Auxiliadora da Silva, A preparação das meninas, 1972. Técnica mista, 60 x 100 cm. Coleção particular. (Foto: Jorge Bastos)

Reconhecimento nacional e internacional
Na década de 1970, Auxiliadora conhece o crítico de arte Mário Schemberg, que compra suas obras e a apresenta ao cônsul dos Estados Unidos, Alan Fisher. O cônsul organiza então a primeira exposição individual da artista, na Galeria do USIS (serviço de informação norte-americano), no Conjunto Nacional, em São Paulo, onde todas as suas obras são vendidas. Ainda pela mediação do crítico, a artista é apresentada ao marchand e colecionador Werner Arnhold, que introduz as obras da artista em exposições e galerias na Europa e nos Estados Unidos. A partir de então, ela ganha projeção internacional.

Sua relação com o MASP tem início em 1973, ao integrar a coletiva "Exposição Afro-Brasileira de Artes Plásticas", mas consolida-se dois anos depois, quando Pietro Maria Bardi, diretor fundador do Museu, escolhe uma de suas pinturas para estampar a capa da coletiva "Festa de Cores" (1975). Nos anos seguintes, Bardi lança um livro sobre a artista em quatro línguas – português, inglês, francês e alemão – e realiza uma individual sua no museu, em 1981, com cerca de 70 pinturas. No entanto, a partir de meados dos anos 1980, sua obra cai em gradativo ostracismo, chegando à atualidade praticamente esquecida.

Maria Auxiliadora da Silva, Última Unção, 1973. 32,5 x 24,5 cm. Coleção Alfo Lagnado (Foto: Jorge Bastos)

Catálogo
Com o intuito de manter acesa na memória a produção de Auxiliadora, o MASP lança um catálogo com 12 ensaios inéditos, de Adriano Pedrosa, Amanda Carneiro, Fernando Oliva, Isabel Gasparri, Karen Quinn, Lilia Schwarcz, Lucienne Peiry, Marta Mestre, Mirella Santos Maria, Renata Bittencourt, Renata Felinto e Roberto Conduru; 3 republicações de textos históricos, de Mário Schenberg (1970), Lélia Coelho Frota (1975) e Pietro Maria Bardi (1977); e 1 nota biográfica, de Artur Santoro. Além das 82 obras selecionadas para a mostra no Museu, a publicação traz ainda reproduções de outras 82 pinturas localizadas durante o processo de pesquisa, compondo o mais completo livro sobre a artista já lançado. A organização editorial é de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva.

Maria Auxiliadora da Silva, Velório da noiva, 1974. Guache e massa de poliéster sobre tela, 50 x 100 cm. Acervo MASP. (Foto: Eduardo Ortega)

Serviço
Exposição: "Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência", com curadoria de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva.
Datas e horários: Abertura dia 9 de março, às 20h. Em cartaz de 10 de março a 10 de junho de 2018. De terça a domingo, das 10h às 18h (bilheteria aberta até as 17h30); quinta-feira, das 10h às 20h (bilheteria até 19h30).
Local: MASP (Galeria e mezanino do primeiro subsolo) | Avenida Paulista, 1578 - São Paulo.
Ingressos: R$35,00 (entrada); R$17,00 (meia-entrada). O MASP tem entrada gratuita às terças-feiras, durante o dia todo. AMIGO MASP tem acesso ilimitado e sem filas todos os dias em que o museu está aberto. O ingresso dá direito a visitar todas as exposições em cartaz no dia da visita. Estudantes, professores e maiores de 60 anos pagam R$15,00 (meia-entrada). Menores de 10 anos de idade não pagam ingresso. O MASP aceita todos os cartões de crédito.