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Mãe Preta

Artistas: Vários

Curadoria: Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa

De 4/10 a 27/11

Funarte Ver mapa

Endereço: Alameda Nothmann, 1058 - Campos Elíseos, São Paulo - SP,

Telefone: (11) 3662-5177

As conhecidas imagens das amas-de-leite negras, registradas desde meados do século 19 ao início do século 20, são o ponto de partida da pesquisa das artistas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa para a realização da exposição “Mãe Preta”, que acontece na Galeria Mario Schenberg, da Funarte São Paulo. A mostra - que reúne fotografias, vídeos, instalações, performance e literatura, tem o intuito de discutir a questão da memória da escravidão e o legado da mulher negra na formação da sociedade brasileira dentro da história visual do país - permanece em cartaz entre os dias 4 de outubro e 27 de novembro de 2018, com entrada livre e gratuita.

Vênus da Gamboa #2 (Interferência sobre livros com imagens de August Stahl ca. 1885), 2016. Fotografia, 50x70 cm. Foto: Divulgação.

A exposição chega a São Paulo após grande sucesso de público e crítica no Rio de Janeiro, em 2016, quando foi exibida na Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea (dentro do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, na capital fluminense), com cerca de 2 mil visitantes, e também em Belo Horizonte, em 2017, no Palácio das Artes. O projeto surgiu da pesquisa artística de Isabel e Patricia, iniciada em 2015, que busca traçar os elos e as ressonâncias entre a condição social da maternidade durante a escravidão por meio de releituras de imagens e arquivos do período, o desaparecimento da história escravocrata na malha urbana das cidades brasileiras e as vozes de mulheres e mães negras na contemporaneidade.

“A exposição objetiva contrapor a representação romantizada das 'mães pretas' e da maternidade em arquivos históricos do período escravocrata ao protagonismo real e crescente exercido pelas mães negras de hoje. Iniciamos este projeto dentro de um contexto histórico com as escavações arqueológicas e a memorialização da escravidão da região portuária do Rio de Janeiro nos últimos anos. À medida que foram se revelando diversos achados, começamos a buscar elementos que se articulassem com o papel da mulher negra – focando na sua função dupla como mãe de seus próprios filhos e como amas-de-leite de crianças brancas – na formação social da cidade. Essas vidas, marcadas pelo terror da separação e mesmo morte de seus filhos em prol da criação dos filhos de outrem, deixaram marcas indeléveis como uma das grandes injustiças da história do Brasil e de toda a sociedade escravocrata. Com a exposição propomos como reflexão as lacunas históricas em relação ao papel fundamental da maternidade tal como exercido pela mulher negra na nossa história urbana, social e visual, buscando pontos de inflexão com as lutas na sociedade contemporânea”, afirma Isabel.

Modos de Olhar - Baptiste Debret, 2016. Impressão em papel de algodão, 45x58 cm. Foto: Divulgação.

Dividida em oito séries, “Mãe Preta” apresenta instalações, colagens e intervenções em gravuras e fotografias, que, reunidas, propõem uma reinvenção poética da iconografia relacionada às mães pretas dentro de uma linguagem contemporânea tendo como ponto de partida imagens fotográficas do acervo do Instituto Moreira Salles, do Rio de Janeiro, e releituras de livros com gravuras de Jean-Baptiste Debret, Johan Moritz Rugendas e outros artistas. Isabel e Patricia criaram intervenções nessas imagens com objetos óticos, como lupas e lentes, que destacam a complexidade das relações das amas-de-leite com as crianças brancas de seus senhores e das mulheres escravizadas e seus próprios filhos dentro de contextos domésticos, urbanos e rurais.

“De tão conhecidas, estas imagens são vistas de forma superficial e contribuem para um olhar normalizado sobre a vida dessas mulheres que desempenharam um papel fundamental na formação da sociedade brasileira, mas que não revelam as histórias de violência sofridas por elas. Os trabalhos propõem uma nova forma de olhar essas imagens, de modo que a figura materna apareça no primeiro plano e não apenas como um detalhe da vida cotidiana e familiar nos tempos da escravidão”, explica Patricia.

Modos de Olhar - Interferência sobre fotografia de Marc Ferrez, 2016. Fotografia, 50 x 75 cm. (Marc Ferrez, c.1885, Partida para a colheita do café). Foto: Divulgação.

Nesse sentido, marcas naturais do tempo em reproduções de negativos de Marc Ferrez e outros fotógrafos do século 19 são aproveitadas para simbolizar cicatrizes expostas em composições fotográficas em substituição a cópias perfeitas. A dupla também levantou, em jornais de época, anúncios sobre o aluguel de amas-de-leite, assim como artigos em publicações abolicionistas denunciando escândalos e abusos diretamente relacionados à questão das amas-de-leite no século 19, sobre os quais também intervêm com diversos objetos.

Para esta edição, as artistas fizeram uma imersão nos contextos específicos de São Paulo e São Luís, para onde a exposição viajará em dezembro, após a etapa paulistana. Na capital paulista, as artistas seguiram o debate sobre o apagamento da história negra da cidade e, no Maranhão, realizaram entrevistas com lideranças femininas dos Quilombos Santa Rosa dos Pretos e Santa Joana, que resultaram em obras inéditas que serão apreciadas pelo público.

Modos de Olhar - Interferência sobre fotografia de Marc Ferrez, 2016. Fotografia, 40 x 60 cm. (Marc Ferrez, c.1885, Partida para a colheita do café com carro de boi). Foto: Divulgação.

Inédita em São Paulo, a exposição inclui o lançamento de um catálogo com contribuições de nomes nacionais e internacionais, como a antropóloga e curadora-adjunta para histórias e narrativas no Masp, Lilia Moritz Schwarcz (USP); a antropóloga e pesquisadora Martina Ahlert (UFMA); o escritor Alex Castro; o historiador e diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, Júlio César Medeiros da Silva Pereira (UFF); a historiadora da arte, educadora criativa e curadora britânico-nigeriana Temi Odumosu (Universidade de Malmö - Suécia); e a fotógrafa, escritora e professora do ICP-Bard (EUA), a norte-americana Qiana Mestrich.

Um dos pontos altos da exposição é a vídeo-instalação Modos de Fala e Escuta (com 27 minutos de duração), que reúne o depoimento de sete mães negras sobre maternidade, racismo, memória, ancestralidade, violência e lutas cotidianas. Nesse sentido, outro destaque da mostra é a obra Mural das Heroínas, com 20 retratos de líderes negras, desde Luísa Mahin, Tereza de Benguela e Nzinga de Angola às feministas Lélia Gonzalez e Beatriz do Nascimento, além de figuras políticas como Laudelina de Campos e Marielle Franco, entre outras, que simbolizam as conquistas sociais, a luta, a resistência, a voz e o lugar histórico da mulher negra no Brasil.

A exposição também conta com a minibiblioteca Mãe Preta, que disponibiliza publicações de autoras negras contemporâneas e uma seção voltada para a literatura infanto-juvenil com títulos sobre protagonismo negro para consulta do público.

Modos de Habitar, 2016. Fotomontagem a partir de fotografias de Marc Ferrez e Augusto Stahl, 100 x 148 cm. (Baía de Guanabara, c. 1885, Paquetá, Rio de Janeiro, Marc Ferrez/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles). Foto: Divulgação.

A abertura da exposição em São Paulo, em 4 de outubro, contará com uma performance da carioca Jessica Castro (professora de Dança Educação, pesquisadora do Jongo, intérprete do movimento da dança afro-brasileira, artista de rua e militante do movimento negro) e da maranhense radicada no Rio de Janeiro, Glauce Pimenta Rosa (cantora, artista, gestora criativa de projetos culturais de arte e educação e ativista negra feminista), que também são protagonistas da vídeo instalação. Em 6 de outubro, às 11h, haverá visita guiada e bate-papo com Isabel e Patricia.

O catálogo da exposição será lançado em 10 de novembro, na Galeria Funarte, em São Paulo. Na ocasião, haverá uma oficina gratuita com a escritora, poetisa e cordelista Jarid Arraes, cearense radicada em São Paulo e autora da coletânea “Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis”, lançado pela Pólen Livros, em 2017.

Modos de Olhar (Guillobel), 2016. Foto: Divulgação.

Serviço
Exposição: “Mãe Preta", concebida pelas artistas visuais Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa.
Datas e horários: Abertura dia 4 de outubro, das 18h às 21h. Em cartaz entre os dias 5 de outubro e 27 de novembro de 2018. De segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados e domingos, das 11h às 21h.
Local: Funarte São Paulo (Galeria Mario Schenberg) | Alameda Nothmann, 1058 – Campos Elíseos, São Paulo.
Entrada livre e gratuita.
Atrações
4 de outubro:
abertura,das 18h às 21h, com performance de Jessica Castro e Glauce Pimenta Rosa;
6 de outubro: às 11h haverá bate-papo e visita guiada com as artistas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa;
10 de novembro: das 16h às 18h, oficina com Jarid Arraes (convites serão distribuídos meia hora antes do início da atividade);
10 de novembro: às 18h30 acontecerá o lançamento do catálogo.