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Lasar Segall: ensaio sobre a cor

Artistas: Lasar Segall

Curadoria: Maria Alice Milliet

De 25/10 a 5/3

Sesc 24 de Maio Ver mapa

Endereço: Rua 24 de Maio, 109, Centro, São Paulo- SP

Telefone: (11) 3350-6300

O Sesc 24 de Maio apresenta a partir de 25 de outubro de 2018 a produção de um dos nomes consagrados da arte do século XX: Lasar Segall. Em "Lasar Segall: ensaio sobre a cor" o público tem a oportunidade de conhecer um raro e robusto conjunto de trabalhos, peças provenientes de coleções particulares e de grandes instituições - como Pinacoteca do Estado de São Paulo, MASP, Instituto de Estudos Brasileiros (USP), Fundação Edson Queiroz e Fundação José e Paulina Nemirovsky. A retrospectiva, com 87 pinturas e seis desenhos, além de fotografias e documentos, conta com a curadoria de Maria Alice Milliet e permanece em cartaz até 5 de março de 2019, com entrada livre e gratuita.

Lasar Segall, Desenho Original do Caderno Visões de Guerra, 1940-43. Tinta preta pena sépia aguada e guache branco sobre papel, 15,5 x 19,5cm. Coleção Museu Lasar Segall – IBRAM-MinC. Foto: Sérgio Guerini.

Realizada em parceria com o Museu Lasar Segall, a mostra ilumina de forma inédita a questão cromática na produção do artista lituano naturalizado brasileiro. Ao ser apresentada no Sesc 24 de Maio, localizado no lugar de encontro de povos refugiados e das mais diversas origens, a exposição demonstra a atualidade da obra de Lasar Segall, um pintor que retratou o drama de populações desterradas.

Segundo a curadora, a conquista da liberdade cromática é da maior importância para Segall em todas as fases de sua pintura. Por isso os diferentes esquemas cromáticos adotados pelo pintor determinam o agrupamento das obras na exposição, espaço desenhado por Pedro Mendes da Rocha. Os quatro blocos aludem a quarteirões de uma cidade, com uma praça central onde serão realizadas as atividades integradas e instalada a única escultura do artista na mostra, Três jovens (2001) que, pertencente ao acervo da Pinacoteca, integra o conjunto de obras do Parque da Luz. A obra, produzida em bronze após a morte do artista, foi realizada a partir do exemplar em pedra de Ipanema, de 1931. Em cada um dos núcleos – "Angústia: a cor emoção"; "Sob o signo dos trópicos: a paleta nacional"; "Compaixão: a não cor"; e "Introspecção: a 'cor Segall'” –, Milliet inclui a obra de outro brasileiro em diálogo com a respectiva fase de Segall.

O diretor do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, afirma que "os recortes da exposição estão organizados a partir dos densos segmentos presentes em quatro fases da carreira do artista. A ideia que permeia o projeto expositivo possibilita aos visitantes diversas áreas de contato com as obras do artista lituano, que adotou o Brasil como pátria. Dessa forma, o Sesc concretiza a missão institucional, focado na educação permanente, oferecendo meios às pessoas para que encontrem e reconheçam seus próprios sentidos na aproximação com o artista e com o seu fazer artístico”.

Lasar Segall, Paisagem Brasileira, 1925. Óleo sobre tela, 64 x 54cm. Coleção Museu Lasar Segall – IBRAM MinC. Foto: Jorge Bastos.

Os flagelos migratórios começam a surgir em "Angústia: a cor emoção" (de meados da década de 1910 a 1923), segmento que traça a produção de Segall enraizada no expressionismo, resultado de sua formação acadêmica em Berlim, e antecede a Primeira Guerra Mundial. “As terríveis consequências do conflito levam o artista a acolher em sua arte a dor e o desamparo dos refugiados, dos pobres e das prostitutas”, afirma a curadora. Segundo ela, a exacerbação de sentimentos se manifesta no desenho anguloso das figuras e no uso de cores intensas e contrastantes, como se observa em Duas amigas (c. 1917/1918), Morte (1919) e Gestante (1919). “As cores, aparentemente arbitrárias – roxos, azuis profundos, rosas macerados e amarelos biliosos – são como gritos de angústia em uma sociedade doente.” Ao incluir neste núcleo O homem amarelo (1915/1916), de Anita Malfatti, acentua-se o aspecto da liberdade no uso da cor (não naturalista).

"Sob o signo dos trópicos: a paleta nacional" (de 1924 a 1935) expressa o mergulho de Segall no modernismo brasileiro, sob o impacto da luz tropical, quando sua pintura ganha nova intensidade. “O artista investe em uma paleta solar, em que sobressaem os vermelhos, os ocres terrosos e o verde exuberante da vegetação.” Um quadro emblemático dessa fase é Bananal (1927), no qual um mar de folhas de bananeira serve de pano de fundo a uma vigorosa cabeça de negro cuja plástica remete à escultura africana. O sapo (1928), de Tarsila do Amaral, dialoga com essa fase de Segall, em que adere a uma pintura de cores saturadas, inspirada em temas populares.

Lasar Segall, Menino com Lagartixas, 1924. Óleo sobre tela, 98 x 61 cm. Coleção Museu Lasar Segall - IBRAM MinC. Foto: Jorge Bastos.

Já os horrores da II Guerra e o deslocamento de populações marginalizadas estão expressos em "Compaixão: a não cor" (décadas de 1930 e 1940). O sofrimento ocupa a obra de Segall com um cromatismo de baixa intensidade, tons ocres, acinzentados e pretos temperados por verdes e rosas rebaixados. “É de gente que essa pintura trata, gente sem nome e sem lugar”, analisa Milliet. Destacam-se no núcleo pinturas monumentais como Emigrantes III (1936), Pogrom (1937) e Guerra (1942), além de “desenhos fluidos, impulsivos, desesperados, [...] infelizmente ainda tão atuais”. Insere-se nesse contexto Retirantes (1936), de Candido Portinari.

Por sua vez, "Introspecção: a 'cor Segall'” (meados de 1940 a 1957, ano da morte do artista) reúne obras concebidas em seu refúgio nas montanhas de Campos do Jordão, que remetem à paisagem original de sua infância na Lituânia. Matas, animais, cabanas na floresta, lugar mítico do folclore da Europa do Norte, são construídos com uma paleta sofisticada, que chegou a ser denominada de “cor Segall” pelo crítico Paulo Mendes de Almeida. Segundo a curadora, do ponto de vista pictórico, Segall realiza um exercício de depuração, em que alia a forma compacta a um cromatismo requintado. “Nessas obras permanecem os tons baixos, azuis, verdes e amarelos em gradações sutis, tão requintadas quanto a pátina que recobre os troncos úmidos das árvores no interior da mata”, destaca Milliet.

Com as florestas, conforme a curadora, o pintor, que se manteve fiel ao humanismo e à representação pictórica, chega às bordas da abstração, trabalhando a luz como elemento fundante da pintura. Segall chega, por fim, aos estudos das favelas, que antecedem sua morte em 1957. Para Milliet, essas são tentativas de transpor para a tela a dura realidade social dos que vivem precariamente. “Segall sente-se atraído pela estrutura construtiva desses aglomerados, tal como Milton Dacosta quando, em Composição (1955), obra que faz parte do núcleo, pinta a cidade vista da janela de seu apartamento”, conclui a curadora.

Lasar Segall, Favela, 1954 - 1955. Óleo sobre tela, 65 x 47,5 cm. Coleção Clarissa Segall. Foto: Jorge Bastos.

Sobre o artista
Lasar Segall nasceu em 1889, em Vilna, capital da atual República da Lituânia, na época sob o domínio do Império Russo. De família judaica, vivenciou desde cedo as restrições impostas aos judeus. Seu pai, além de comerciante, exercia a função de escriba dos textos sagrados da Torá. O constante temor pelos surtos de violência contra os membros da comunidade levou o jovem, que já demonstrava talento para o desenho, a tentar a vida longe dali.

Em 1906, frequentou em Berlim a Escola de Artes Aplicadas e a Academia Imperial de Belas Artes. Mudou-se para Dresden, em 1910, onde prosseguiu seus estudos. Dois anos depois, veio pela primeira vez ao Brasil, onde já viviam três dos seus irmãos. Nessa oportunidade, mostrou seus trabalhos próximos ao impressionismo em duas exposições (São Paulo e Campinas).

Retornou à Europa em fins de 1913. De volta a Dresden, conheceu a atriz Margarete Quack, com quem se casaria após a Primeira Guerra Mundial. Com o início do conflito, por ser cidadão russo, ficou confinado na cidade de Meissen, conseguindo depois permissão para retornar a Dresden. Em 1916, obteve autorização para visitar Vilna, que estava destruída pelas tropas russas. Nesse momento resolveu abandonar a fidelidade à natureza para dar forma visual à violência contra os judeus, permitindo que a emoção distorcesse as formas e libertasse a cor. Em outubro de 1916, mostrou alguns desses trabalhos em Dresden.

Retrato Lasar Segall. Foto: Divulgação.

Em 1918, com a instauração da República de Weimar, o expressionismo, até então uma tendência marginal, alcançou ampla aceitação. Lasar Segall alinhou-se formalmente à nova estética. Em janeiro de 1919 fundou, com outros artistas, o Dresdner Sezession Gruppe 1919 [Grupo Secessão de Dresden 1919], quando sua arte começou a ganhar reconhecimento, com obras em museus públicos e coleções privadas. Ainda em 1919, a seção de arte moderna do Museu Municipal de Dresden foi inaugurada com a aquisição de sua tela Eternos caminhantes (1919). Apesar do relativo sucesso, em fins de 1923 Segall decidiu emigrar para o Brasil com a esposa Margarete. Em São Paulo, foi acolhido pelos modernistas.

Já separado de Margarete, em 1925 foi convidado a decorar o Pavilhão de Arte Moderna de Olívia Guedes Penteado, espaço em que a mecenas reunia sua coleção modernista. No mesmo ano, Segall casou-se com Jenny Klabin. Em dezembro, o casal viajou à Europa, e no ano seguinte nasceu em Berlim seu primeiro filho, Mauricio. De 1928 a 1932 residiram em Paris, onde Segall iniciou investigações no campo da escultura. Nessa temporada nasceu Oscar, seu segundo filho. De volta ao Brasil, dedicou-se à organização da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM), entidade dedicada à disseminação das propostas de vanguarda em São Paulo, que seria extinta em 1935.

Em julho de 1937, o governo nazista decidiu empreender uma campanha oficial contra o que chamava de Entartete Kunst [arte degenerada]. O governo alemão confiscou aproximadamente 16 mil obras de arte, entre as quais cerca de 50 de Lasar Segall. Muitas delas foram exibidas na exposição "Entartete Kunst", que estreou em Munique (1937) e percorreu depois uma série de cidades da Alemanha.

Retrato Lasar Segall. Foto: Divulgação.

Lasar Segall permaneceu no Brasil e foi incorporado à história da arte brasileira. Realizou diversas exposições em 1937 e 1938, no Brasil e na França, e suas obras passaram a integrar coleções de museus brasileiros e franceses. Em 1943, foi homenageado com uma grande exposição retrospectiva, realizada no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Em 1945, ainda no Rio, tomou parte na exposição Arte condenada pelo Terceiro Reich, um desagravo aos artistas perseguidos pelo regime nazista, na Galeria Askanazy. Em 1948, apresentou uma grande exposição em Nova York.

Durante seus mais de 50 anos de atividade, com a produção reconhecida, o artista foi tema de dezenas de ensaios e biografias, detendo uma das maiores fortunas críticas da arte brasileira. Segall faleceu em 2 de agosto de 1957, em sua residência em São Paulo. Auxiliada pelos filhos Mauricio Segall e Oscar Klabin Segall e pelo amigo Luiz Hossaka, a viúva Jenny Klabin Segall coordenou várias exposições póstumas de Segall na Europa, entre 1958 e 1962. Em 21 de setembro de 1967, foi inaugurado oficialmente o Museu Lasar Segall, situado na antiga residência do casal no bairro de Vila Mariana, em São Paulo.

Sobre a curadora
Maria Alice Milliet é curadora, crítica e historiadora da arte. Atuou como diretora da Pinacoteca do Estado de São Paulo, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e da Fundação José e Paulina Nemirovsky. É nome relevante no entendimento da história da arte moderna brasileira, desenvolvendo uma pesquisa inédita sobre a cor na obra de Lasar Segall.

Lasar Segall, Pogrom, 1937. Óleo sobre tela, 184 x 150 cm. Coleção Museu Lasar Segall - IBRAM MinC. Foto: Jorge Bastos.

Serviço
Exposição: "Lasar Segall: ensaio sobre a cor", com curadoria de Maria Alice Milliet.
Datas e horários: Abertura dia 25 de outubro de 2018. Em cartaz até 5 de março de 2019. De terça a sábado, das 9h às 21h; domingos e feriados, das 9h às 18h.
Local: Sesc 24 de Maio | Rua 24 de Maio, 109 - Centro, São Paulo.
Entrada livre e gratuita (agendamento de grupos pelo e-mail agendamento@24demaio.sescsp.org.br).