AGENDA DAS ARTES

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ISSOÉOSSODISSO

Artistas: Lenora de Barros

Curadoria: Priscila Arantes

De 30/4 a 30/7

Oficina Cultural Oswald de Andrade Ver mapa

Endereço: Rua Três Rios, 363 - Bom Retiro

Telefone: (11) 3222-2662 | (11) 3221-4704

O gesto performativo de Lenora de Barros e o processo de criação da artista norteiam "ISSOÉOSSODISSO", exposição que o Paço das Artes inaugura no dia 30 de abril na Oficina Oswald de Andrade. Com curadoria de Priscila Arantes (diretora artística e curadora do Paço das Artes), a mostra apresenta mais de 20 obras da artista, incluindo um vídeo inédito, que dá nome à exposição.

Lenora de Barros, ISSOEOSSODISSO, 2016 - vídeo, 7min, stereo (Divulgação)

"ISSOÉOSSODISSO" funciona como metáfora do processo de criação da artista. “Neste processo, é possível perceber um elemento comum: as obras de Lenora de Barros sempre se desdobram, gerando ecos em outras obras. Um texto escrito transforma-se em um vídeo. Uma performance se desdobra em uma vídeoperformace. Uma mesma imagem, uma boca entreaberta, um olhar assustado, aparece em diferentes trabalhos que se inter-relacionam”, afirma Priscila Arantes.

Lenora de Barros conta que o poema que batiza a mostra foi criado em 1996 para uma performance que realizou com Arnaldo Antunes num congresso da Sociedade Brasileira de Psicanálise (O desejo é o começo do corpo/O corpo não mente). Em 2010, na galeria do Oi Futuro Ipanema, RJ, Lenora criou em uma vitrine um poema visual a partir desse mesmo enunciado. “A partir do momento que Priscila definiu o recorte da curadoria – o viés performático da minha obra – comecei a perceber claramente que o meu trabalho funciona como ‘isso é osso disso’. Vivo um processo em que muitas de minhas obras vão migrando e se transformando em outras”, diz.

Segundo Priscila Arantes, o trabalho de Lenora de Barros é um “eterno work in progress, em que uma obra gera eco em outra. Este é o caso, por exemplo, da performance Pregação, que ocorrerá na abertura da exposição, que é uma releitura das obras Calaboca e Silêncio (1990/2006), também presentes em 'ISSOÉOSSODISSO'”.

Leonora de Barros, Língua Vertebral (Divulgação)

Língua antropofágica
A exposição resgata também o resultado da reflexão de Lenora de Barros sobre o conceito de antropofagia, formulado por Oswald de Andrade, fruto de sua participação na 24ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1998, conhecida também como Bienal da Antropofagia. Convidados por Paulo Herkenhof e Haroldo de Campos, Lenora de Barros, ao lado de Arnaldo Antunes (1960) e Walter Silveira (1955), apresentaram a instalação A contribuição multimilionária de todos os erros, que contava com plotagens fotográficas, entre elas Língua Vertebral e No país da língua grande daí carne a quem quer carne, em que a artista aparece mastigando a própria língua. Esse trabalho se transformaria em videoperformance em 2006.

“Para a Bienal mergulhei no universo de Oswald de Andrade e criei duas fotoperformances - Língua vertebral e No país da língua grande, dai carne a quem quer carne. O título dessa segunda obra foi criado a partir da frase “no país da cobra grande”, que está no Manifesto Antropófago, e o intuito era expressar a ideia de uma ação antropofágica e deglutidora gerando sentidos, significados, linguagem. Em Língua vertebral tratei a imagem da língua, e dei a ela, através da sobreposição de uma espinha dorsal, uma estruturação”, conta Lenora.

Dentro desse contexto, Lenora lembra, ainda, da influência de Lygia Clark, cujo trabalho teve contato na década de 1970, e do impacto que Baba antropofágica (1973) lhe causou na época.

Leonora de Barros, Poema, 1978 (Divulgação)

A imagem da língua aparece pela primeira vez na obra de Lenora falicamente “fecundando” as letras da máquina de escrever, no célebre Poema, fotoperformance de 1978, também em exibição na mostra.

A primeira videoperformance de sua carreira Homenagem a George Segal (1985), dirigida por Walter Silveira, é mais um resgate dessa exposição. Nas palavras de Priscila Arantes: “a utilização do corpo, neste caso de seu rosto, também se faz presente em Homenagem a George Segal, primeiramente poema visual, realizado em 1975 - que se transformou dez anos depois em sua primeira videoperformance, inspirada nas figuras solitárias e patéticas do escultor norte americano. Aqui Lenora desenvolve uma ação cotidiana de escovar os dentes. No vídeo, sua mão e rosto são gradativamente encobertos por pasta de dente, em uma espécie de ‘paralisação’ absoluta, paralisação que ecoa por toda a exposição, seja na impossibilidade da fala ou na interdição do olhar: Ela não quer ver, Já vi tudo, Fogo no Olho, Calaboca e Silêncio, Estudo para Facadas.”

Outra vertente da curadoria traz o conjunto de trabalhos criado a partir da obra Procuro-me (2001), inicialmente publicada no caderno Mais! (Folha de S. Paulo) logo após a queda das Torres Gêmeas, que se transformou numa série de cartazes, vindo a se tornar mural lambe-lambe e vídeo. Quando expostos na fachada do Centro Universitário Maria Antonia, em 2002, os quatro cartazes plotados foram pichados, e alguns recortados e roubados 15 dias após a abertura, e um grupo, que se autodenominava Art-Atack, assumiu as pichações. Em seguida, Lenora de Barros iniciou um processo de “recuperação” e resgate dessas imagens, que resultariam nas obras da série Retalhação.

Para a mostra, a artista criou um novo mural de lambe-lambes em que mistura a imagem original dos cartazes de Procuro-me com imagens da intervenção do Art-Atack, enviadas à artista pelo grupo na época. Na exposição, a artista conta pela primeira vez o processo e a história dessa série por meio de documentos, tais como as cartas originais que lhe foram enviadas. “Ao fazer a obra Hífen (2007), da série Retalhação, achei que tivesse encerrado o percurso desse trabalho­ --e que esse sinal gráfico que de algum modo me unia e separava do grupo funcionaria como o ponto final dessa história. Mas talvez Procuro-me vai continuar, sempre, a me procurar. É um outro ‘osso disso’", diz Lenora de Barros.

Leonora de Barros, Já vi tudo#1 (Divulgação)

Sobre a artista
“Desde o início de minha trajetória, trabalho com os vários aspectos da linguagem. Minhas primeiras experiências, em meados dos anos 70, se deram a partir da palavra e da fotoperformance, influenciada pelas conquistas de linguagem da poesia concreta. Seus conceitos, sua vocação multidisciplinar e seu diálogo com outras linguagens artísticas apontaram possibilidades e direções a serem exploradas. Tentei expandir para o espaço o aspecto verbivocovisual da linguagem, procurando, sempre,  uma poética que contemplasse o verbal, o sonoro, a oralidade e o visual.”

Lenora de Barros (São Paulo / SP, 1953) é formada em linguística pela Universidade de São Paulo. Poeta e artista visual, seu trabalho se desenvolve a partir de diversas linguagens, como o vídeo, a performance poética, a fotografia e a instalação. Participou como artista-curadora da "Radiovisual", na 7ª Bienal do Mercosul (Porto Alegre, RS), 2009.

Leonora de Barros, Procuro-me, 2001 (Divulgação)

Sobre a curadora
Priscila Arantes é diretora artística e curadora do Paço das Artes, instituição da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, desde 2007. Entre 2007 e 2011 foi diretora adjunta do MIS (Museu da Imagem e Som). É pós-doutora pela Pennsylvania State University (EUA), doutora em Comunicação e Semiótica pela (PUC/SP), pesquisadora, crítica de arte e professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação stricto sensu.

Em 2007, foi finalista do 48º Prêmio Jabuti pela publicação Arte@Mídia: perspectivas da estética digital (Ed.Senac/Fapesp). Em 2012, foi contemplada com o prêmio da Getty Foundation (USA), para participar da 101ª Conferência Anual da College Art Association (CAA). É autora também de Reescrituras da Arte contemporânea: história, arquivo e mídia (Editora Sulina, 2015). Entre suas curadorias no Paço das Artes, destacam-se os projetos "Livro_Acervo" (2010), "Para Além do Arquivo" (2012),  "Arquivo Vivo" (2013), "MaPA: Memória Paço das Artes", e "Abrigo de paisagem/Veículo de passagem" (2015), de Rodrigo Braga, entre outras.

Leonora de Barros, Fogo no Olho, 1995 (Divulgação)

serviço
Exposição: "ISSOÉOSSODISSO", de Lenora de Barros com curadoria de Priscila Arantes.
Datas e horários: Abertura dia 30 de abril, sábado, às 15h. Às 16h30, ocorrerá a performance Pregação. Em cartaz até 30 de julho de 2016. De segunda a sexta-feira, das 9h30 às 21h30; sábados, das 13h30 às 20h30.
Local: Oficina Cultural Oswald de Andrade | Rua Três Rios, 363 - Bom Retiro.
Entrada gratuita.