AGENDA DAS ARTES

Voltar

Flávio de Carvalho - Expedicionário

Artistas: Flávio de Carvalho

Curadoria: Amanda Bonan e Renato Rezende

De 9/1 a 4/3

Caixa Cultural Ver mapa

Endereço: Praça da Sé, 111 - Centro

Telefone: (11) 3321-4400

Entre os dias 9 de janeiro e 4 e março de 2018, a Caixa Cultural São Paulo recebe a exposição “Flávio de Carvalho - Expedicionário”, que apresenta inúmeras experiências do artista que estabeleceu pontes para práticas libertárias da arte brasileira. Organizada pelos curadores Amanda Bonan e Renato Rezende, a mostra revela uma faceta pouco conhecida do artista modernista - considerado por Oswald de Andrade "o antropófago ideal" - ao reunir projetos experimentais, fotografias, filme, documentos, cadernos de viagem e reportagens de jornal. A entrada é livre e gratuita. O centro cultural recebe também, no dia 27 de janeiro (sábado), às 16h, o lançamento do catálogo da exposição e um bate-papo com os curadores.

Fotografia de Flávio de Carvalho (1899-1973). Eva Harms deitada na rede. Expedição Amazônica, também conhecida como Experiência nº- 4 e realizada em 1958. Foto: Fundo Flávio de Carvalho - CEDAE - UNICAMP.

Engenheiro civil, arquiteto, cenógrafo, artista plástico, escritor, performer, estilista... Flávio de Carvalho se aventurou por diversas áreas de criação. Ainda hoje tido como sinônimo de invenção e polêmica, o artista segue provocando o mundo com seu pensamento contestatório. Conforme ele mesmo afirmava, o artista é como um arqueólogo, e ele, de certa forma, dá continuidade à herança expedicionária fundadora do Brasil. Em “Flávio de Carvalho - Expedicionário”, tal continuidade fica evidente em resíduos e vestígios deixados por uma série de projetos de cunho experimental e expedicionário levados a cabo pelo artista, que se dedicou a quebrar regras, alargar horizontes e romper as formas academicistas de tratar a arte.

Apontado como um titã da modernidade, a imagem de Carvalho passeando pelas ruas de São Paulo com o New Look, traje que ele criou como sendo ideal para o homem dos trópicos – saia de pregas, blusa de mangas bufantes, meia arrastão e sandália de couro – ainda hoje é capaz de chocar grande parte da sociedade brasileira. A mostra na Caixa Cultural SP propõe um olhar original sobre esse pensamento múltiplo e incontido do artista, com o objetivo de lançar luzes sobre o aspecto expedicionário como abordagem estética intrínseca à sua obra. O modernista, que costumava definir-se como “um arqueólogo malcomportado” (“com mais probabilidades de compreender o não-tempo”), vasculhava as mais profundas camadas de sensibilidade, sem reverenciar o que ele chamava de “catecismo científico”.

A exposição é dividida por expedições, como a “Viagem à Europa” (1934-1935), que rendeu os relatos do livro Os Ossos do Mundo, um verdadeiro caleidoscópio de questões e especulações que o artista desenvolveu a partir de observações sobre cada país, “Rumo ao Paraguai” (1943-1944) e “Viagens aos Andes” (1947), contendo dados e documentos dessa incursão do artista à América Latina. São fotografias, recortes de jornais e reproduções de partes de originais escritos à máquina. Há também a expedição “Viagem à Amazônia” (1956), com projeção de uma edição do filme A Deusa Branca, que une pesquisa etnográfica e drama ficcional de tons surrealistas a partir da história de uma menina branca raptada por índios.

Fotografia de Flávio de Carvalho (1899-1973). Eva Harms e indígena da tribo xirianã. Expedição Amazônica, também conhecida como Experiência nº- 4 e realizada em 1958. Foto: Fundo Flávio de Carvalho - CEDAE - UNICAMP.

Sobre o artista
Inquieto, controverso, performático, anedótico, Flávio de Carvalho (1899-1973) não respeitou regras ou convenções para manifestar seu espírito livre e suas ideias visionárias. Nascido em família aristocrática na cidade de Amparo de Barra Mansa, no Rio de Janeiro, em 1899, viveu de 1911 a 1922 na Inglaterra, onde ser formou em Engenharia Civil, ao mesmo tempo em que fazia um curso noturno de artes plásticas na King Edward VII School of Fine Arts. Foi nesta época que teve os primeiros contatos com os vanguardistas europeus.

De volta ao Brasil, não consegue de adaptar ao estilo formal do mercado de construção da época e, em 1926, emprega-se como ilustrador no Diário da Noite, onde conhece Di Cavalcanti, então atuando como caricaturista do jornal, que o apresenta ao grupo antropofágico de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Um ano depois, participa do concurso para o Palácio do Governo de São Paulo, com um projeto bastante discutido, que se destaca pelo aspecto monumental do edifício, marcado pela decomposição dos volumes e pela intensidade dramática dos jogos de luzes dos holofotes. Flávio de Carvalho participaria ainda de vários concursos, sem nunca ser premiado – entretanto seus projetos são considerados pioneiros da arquitetura moderna do Brasil.

Pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, decorador, escritor, teatrólogo, engenheiro e performer, Flávio de Carvalho tinha fascínio pelo nu feminino (que ele explorou em traços de grande erotismo) e pelo retrato. Apresentou seu trabalho pela primeira vez em 1931, durante o Salão Revolucionário da Escola de Belas Artes, ao lado de artistas como Portinari, Cícero dias, Lasar Segall. No mesmo ano, realiza o polêmico Experiência nº 2, em que caminha com boné na cabeça de forma desafiadora, em sentido contrário ao de uma procissão de Corpus Christi. Sua intenção era testar os limites de tolerância e a agressividade de uma multidão religiosa. Foi quase linchado.

Flávio de Carvalho, New look, 1956. Cortesia Ricardo de Carvalho.

Em 1932, luta a favor da Constituição na Revolução Paulista, abre um ateliê e funda o Clube dos Artistas Modernos – CAM, ao lado de Antonio Gomide, Di Cavalcanti e Carlos Prado. Em 1933, cria o Teatro da Experiência, com o qual encena o espetáculo de dança-teatro Bailado do Deus Morto. No ano seguinte, faz sua primeira individual, que é fechada pela polícia sob a acusação de “atentado ao pudor” e só é reaberta após ordem judicial.

Nova polêmica viria em 1947, quando realiza os desenhos da Série Trágica, na qual retrata a morte da própria mãe. A exposição lhe rendeu a alcunha de “pintor maldito”. Em 1950, representa o Brasil na Bienal de Veneza. Em 1953, desenha os figurinos e o cenário do bailado A Cangaceira, de Camargo Guarnieri. Nas décadas de 1950 e 1960, pinta nus femininos, dedicando-se ao desenho, à aquarela e à gravura.

Em 1956, para concluir uma série de artigos sobre moda na coluna “Casa, Homem, Paisagem”, para o Diário de São Paulo, lança o famoso New Look, traje que ele mesmo criou como sendo o ideal para o homem dos trópicos, desfilando pelas ruas de São Paulo, causando escândalo e chocando a multidão.

Flávio de Carvalho, considerado um precursor da arte multimídia e de performance no Brasil, assina uma obra permeada pelas propostas surrealistas e expressionistas. Em seus últimos trabalhos, utiliza novos materiais, como tinta fosforescente para luz negra.

Fotografia de Flávio de Carvalho (1899-1973). Indígena da tribo xirianã. Expedição Amazônica, também conhecida como Experiência nº- 4 e realizada em 1958. Foto Fundo Flávio de Carvalho CEDAE - UNICAMP 

Serviço
Exposição: “Flávio de Carvalho - Expedicionário”, com curadoria de Amanda Bonan e Renato Rezende.
Datas e horários: Abertura e visita guiada com os curadores no dia 9 de janeiro, às 18h; Em cartaz entre 10 de janeiro e 4 de março de 2018. De terça a domingo, das 9h às 19h.
Local: CAIXA Cultural São Paulo | Praça da Sé, 111 – Centro, São Paulo (próximo à estação Sé do metrô).
Entrada livre e gratuita.
Lançamento do catálogo e bate-papo com os curadores
Data: 27 de janeiro, às 16h.