AGENDA CULTURAL

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Escritexpográfica

Artistas: Fabio Morais

Curadoria: -

De 24/1 a 25/2

Galeria Vermelho Ver mapa

Endereço: Rua Minas Gerais, 350 - Higienópolis

Telefone: (11) 3138-1520

Em sua sexta individual na Galeria Vermelho, Escritexpográfica, Fabio Morais apresenta trabalhos que dão continuidade a sua pesquisa entorno da escrita não apenas como exercício de texto e de construção de narrativas, mas também como apropriação, uso, recomposição e recontextualização de imagens e textos em um exercício de “escrita-sampler”, como coloca o artista. São articulações gráficas da escrita, que adicionam à palavra condição de imagem, criando assim novos significados que podem, também, instigar um olhar analítico à conjuntura politica brasileira e global. 

Manifestação
Obra central em Escritexpográfica, Manifestação (2016) lida com a escrita na arte brasileira a partir dos anos 1960 através de uma colagem de enunciados retirados de pinturas, gravuras, desenhos, fotografias, esculturas, objetos, instalações, livros, cartazes, postais, intervenções, filmes, vídeos e performances. A seleção foi feita por Morais majoritariamente em torno de obras de teor crítico ou de claro posicionamento político. Manifestação concatena significados críticos também em sua formalização, já que é impressa em serigrafia sobre tecido e é apresentada como uma faixa de manifestação.

Manifestação (simulação) 

Imagens
Imagens (2016) * é composta por 1200 títulos de fotografias de imprensa pesquisadas em sites de buscas através de termos ligados a conflitos sociais como “terrorismo”, “atentado”, “refugiados”, “protesto”, “manifestação”, “reintegração de posse” e “repressão policial”, em diversos idiomas. Morais identificou que muitos dos arquivos digitais dessas imagens trazem em seu título uma descrição da imagem, possivelmente feita pelo fotógrafo antes de enviá-los para veículos de imprensa. A imagem tem sua primeira tradução nos títulos sintéticos que as acompanham.

Imagens (detalhe)

Blood
Em Blood (2016), lemos a palavra inglesa para sangue, blood, escrita em cor de rosa sobre um tom mais escuro de rosa. Ao aproximarmo-nos da imagem, podemos notar que esse fundo é, na verdade, uma malha textual formada pela repetição da palavra pixel em vermelho sobre um fundo branco. Pixel é um termo formado por duas palavras inglesas, Picture (imagem) e elemento (elemento). A composição por aglutinação pixel é termo universal no campo da informática que denomina a menor partícula de uma imagem digital, natureza que lhe dá a codificação, e assim, a possibilidade de compactação e a fluidez necessárias para o atual fluxo de informação on line. A imagem propõe uma analogia entre o pixel e a célula, entre a circulação sanguínea e a circulação da informação. Colocada na entrada de Escritexpográfica, Blood propõe um olhar ao que se verá dentro da exposição, estabelecendo o jogo entre vetores micros e macros, bem como o olhar sobre a condição imagética da palavra.

Violação
Violação (2016) é resultado de uma pesquisa de Morais em torno de cartas violadas por sistemas de censura de diferentes países e épocas, com ênfase na metade do século XX. O procedimento nos diferentes países parecia bastante similar: abrir a carta, lê-la e depois fechá-la com um adesivo ou carimbo que marcasse sua liberação para ser enviada ao destinatário ou devolvida ao remetente. As marca de arbítrio ficaram colada nesses envelopes que, com o tempo, tornaram-se peças de colecionismo relacionado à filatelia. Estas marcas de escrutínio podem ser lidas como uma espécie de texto institucional ameaçador inscrito no objeto.

A obra é formada por 23 reproduções fotográficas dessas cartas e por uma carta real. A presença do objeto real em meio a representações fotográficas provoca uma surpresa no observador, evidenciando a maneira com que a fotografia neutraliza e planifica aquilo que representa.

Podre
A apropriação de objetos enquanto informação estético-textual, que há em Violação, repete-se em Podre (2016). Na obra, um conjunto de bolas de bilhar dispostas em triângulo, prontas para a tacada inicial, tem o jogo impossibilitado pela bola de número 9, que foi substituída por uma bola de jornal amassado. Para Morais, o jornal ali colocado, finge garantir o jogo, mas, na verdade, estraga todo o conjunto.

Podre

Vídeo

Escritexpográfica apresenta ainda um eixo de obras nas quais o texto tem também aspectos narrativos. Esses aspectos, no entanto, não estão centrados na descrição, mas no uso dinâmico do texto, que se apropria de qualidades próprias do vídeo ou do cinema. 

Vídeo (2012) apresenta-se como um texto em cor branca sobre um trecho de parede escura. O texto desenvolve-se em duas partes: na primeira, em tom ensaístico, uma voz impessoal diz algo para o mundo; na segunda, em tom de conversa, alguém diz algo para alguém. Tratadas como cenas, as duas partes são fundidas pelo neologismo “precisosseu”, resultado da fusão de “...precisos. Se eu...”, que está localizado no meio da mancha textual. 

A composição do texto faz alusão há duas estratégias de edição de filmes e vídeos: a fusão, configurada pelo neologismo que conecta as duas “cenas”, e ao loop, estratégia típica da vídeo arte que cria uma reprodução continua do material exibido.


Vídeo

Na Imagem, Godard Despede-se da Linguagem
Apresentada originalmente no Jornal de Borda n.2, Na Imagem, Godard Despede-se da Linguagem (2015), traduz o movimento e a velocidade de uma cena que se passa em um vagão de metrô em texto e imagem. As fusões, rastros e outras estratégias de edição, bem como as sensações do personagem em cena, são vertidos em construções com a linguagem escrita. 

Na Imagem, Godard Despede-se da Linguagem, faz referência direta ao filme Adeus à Linguagem, de 2014, dirigido por Jean-Luc Godard. Ao mesmo modo de Godard, Morais parte de uma cena banal para discutir os limites do meio, da linguagem.

Mecânica
Também lidando com os significados semânticos da escrita e sua composição gráfica como uma só unidade de significação, Mecânica (2016) é um texto construído por 8 frases circulares, sem começo nem fim, que falam sobre questões estruturais das desigualdades sócio-políticas brasileiras. 

Brasília
O símbolo nacional, evocado na positivista frase da bandeira, está também em Brasília (2016).  Em duas placas de acrílico preto de um metro quadrado cada, foram coladas reproduções do selo do LP Brasília, Sinfonia da Alvorada, lançado em 1961, ano da inauguração da capital. Com poesia de Vinicius de Morais e música e regência da orquestra sinfônica por Antônio Carlos Jobim, a sinfonia é dividida em I – O Planalto Deserto, II – O Homem, III – A Chegada dos Candangos, IV – O Trabalho e a Construção e V – Coral. Seu ufanismo sonoro soa menos interessante que a leitura dos títulos das partes que dividem a sinfonia e resumem em si certa narrativa otimista para a nova capital. É estranho que a capital símbolo do Brasil moderno tenha recorrido a uma sinfonia, assim como o fato de que dois músicos da bossa nova, marco da moderna música popular brasileira, e ainda a serviço do “presidente bossa nova” Juscelino Kubitschek, tenham composto uma sinfonia. A partir desta estranheza, a concepção do trabalho alude a um LP de uso decorativo, impossibilitado pelo tamanho e formato quadrado das placas de acrílico preto, a ser usado como pingente da arquitetura, 

Sebo Encanto Radical
Junto à exposição de Morais, e fazendo parte dela, será aberto, dentro da Banca Tijuana, o Sebo Encanto Radical (2017), instalação do artista aonde serão vendidos exemplares da coleção
Encanto Radical, da Editora Brasiliense, adquiridos de diversos sebos. 

Iniciada na década de 1980, a Encanto Radical é uma coleção de biografias em formato de bolso cuja escolha dos biografados deixa claro o pensamento progressista da editora. Nos livros, as marcas do Sebo Encanto Radical serão dois relevos impressos: um diálogo no índice de cada exemplar – que fala sobre o indivíduo pertencer ao mundo, ou seja, à história – e uma traça de livro numa página qualquer do miolo. Os exemplares não serão assinados ou numerados já que a obra não parte da ideia de tiragem, mas sim de instalação em permanente manutenção e renovação de estoque.