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Claudia Andujar - A luta Yanomami

Artistas: Claudia Andujar

Curadoria: Thyago Nogueira

De 15/12 a 7/4

Instituto Moreira Salles Paulista Ver mapa

Endereço: Avenida Paulista, 2424 - São Paulo, SP

Telefone: (11) 2842-9120

Entre os dias 15 de dezembro e 7 de abril de 2019, o IMS Paulista apresenta a mostra retrospectiva "Claudia Andujar – A luta Yanomami". A exposição ocupa dois andares do centro cultural e é uma das maiores já feitas pelo Instituto, reunindo cerca de 300 obras e uma instalação da fotógrafa e ativista, além de livros e documentos. O conjunto traça um panorama do trabalho de Andujar dedicado aos Yanomami, retomando aspectos pouco conhecidos de sua trajetória e da sua luta pela demarcação de terras indígenas, numa união entre arte e política. A seleção é resultado de pesquisa de muitos anos no acervo de mais de 40 mil imagens de Andujar, realizada por Thyago Nogueira, coordenador da área de fotografia contemporânea do IMS e curador da exposição. Na abertura, dia 15 de dezembro (sábado), às 11h, a artista participa de uma conversa com o curador da exposição e com o líder indígena Davi Kopenawa, no auditório do IMS Paulista. A programação da mostra também inclui, no dia 16 de dezembro (domingo), às 11h, um ritual xamânico conduzido por Kopenawa. A entrada é livre e gratuita.

A jovem Susi Korihana thëri em um igarapé, filme infravermelho Catrimani, RR, 1972-1974. Foto: © Claudia Andujar.

Claudia Andujar (1931) cresceu na Europa, na região da Transilvânia, de onde escapou para a Suíça durante a Segunda Guerra Mundial. Sua família paterna, de origem judaica, foi morta nos campos de concentração de Auschwitz e Dachau. Emigrou da Suíça para os Estados Unidos e depois para o Brasil, em 1955. Aqui, começou a fotografar e construiu uma carreira bem-sucedida no jornalismo. Em 1971, aos 40 anos, registrou os Yanomami pela primeira vez para a revista Realidade. O encontro mudou a vida da fotógrafa, que voltou inúmeras vezes ao território para documentar aquela cultura ainda relativamente isolada.

O primeiro andar apresenta a fase inicial de sua carreira, com fotografias produzidas entre 1971 e 1977, na região do Catrimani, em Roraima. Andujar acompanha as atividades diárias na floresta e na maloca, os rituais xamânicos e retrata os indivíduos. O mergulho entre os Yanomami foi possível graças a uma bolsa da Fundação John Simon Guggenheim. Segundo o curador Thyago Nogueira, “os anos de dedicação profunda fizeram com que Andujar transformasse o interesse jornalístico e antropológico em uma interpretação radicalmente original da cultura, feita com imagens”.

Maloca próxima à missão católica do rio Catrimani, RR, filme infravermelho, 1976. Foto: © Claudia Andujar.

Nessa parte da exposição, é possível acompanhar as primeiras viagens de Andujar ao território Yanomami, sua aproximação com a nova cultura e o amadurecimento do trabalho, conforme passava mais tempo na floresta. Com a ajuda do missionário Carlo Zacquini, que vivia há muito entre os Yanomami, Andujar pode aprofundar-se na rotina, acompanhar viagens, festas e expedições de caça: “É claro que cortar um animal é algo sangrento, mas, não sei, acho que já me acostumei com isso, não me choca mais e nem acho estranho. É o jeito que as coisas são. Para falar a verdade, estou há tanto tempo com os índios que não acho mais nada estranho. Sempre olho e tento entender. As coisas são do jeito que são”, descreve em um áudio gravado em plena mata.

Um dos conjuntos mais impactantes do período é o registro das festas reahu, as complexas cerimônias funerárias e de aliança intercomunitária, marcadas por ritos específicos e pela fartura de comida. Para produzir as fotos, tentando relacionar o que via com a dimensão mística presente nos rituais, Andujar desenvolveu experimentos fotográficos em São Paulo, com flashes, lamparinas e filmes infravermelhos, que depois aplicou na mata. As imagens traduzem o universo espiritual, dando forma concreta a um mundo abstrato. “Ao interpretar com imagens, e não palavras, como faziam a antropologia e o jornalismo, Andujar também oferecia uma nova camada de significados”, afirma Nogueira.

O xamã e tuxaua João assopra o alucinógeno yãkoana, Catrimani, RR, 1974. Foto: © Claudia Andujar.

Entre 1974 e 1976, Andujar ainda produziu centenas de retratos dos Yanomami que conheceu, formando um conjunto de rostos de crianças, jovens e adultos emergindo de um fundo negro. O conjunto, presente na mostra em 48 retratos, revela fisionomias e elementos culturais, como a tanga feminina ou o cordão cintural dos rapazes. As fotos foram feitas utilizando apenas a luz natural que penetrava nas malocas, e cada sessão consumiu um filme inteiro, medida necessária para criar intimidade.

Depois de algum tempo, a aproximação com os Yanomami também levou a fotógrafa a propor que eles próprios representassem seu universo. Em 1974, com a ajuda de Zacquini, levou ao Catrimani papéis e canetas hidrográficas e deu início a um projeto de desenho, dois anos depois ampliado com uma bolsa da Fapesp. Cerca de 30 desenhos originais de mitos e cenas do cotidiano Yanomami serão apresentados na mostra.

Em 1977, Andujar foi expulsa e impedida de voltar à área indígena pela Funai. O segundo andar da exposição concentra-se no contato radical da civilização branca com a indígena e na história de luta empreendida pela fotógrafa para proteger o povo que adotara como família. Entre os anos 1970 e 1980, o garimpo e os planos de desenvolvimento da Amazônia durante o governo militar introduziram um rastro de doenças, violência e poluição que aniquilou comunidades indígenas inteiras, despreparadas para enfrentá-lo.

Diante da tragédia, Andujar cria com o missionário Carlo Zacquini e o antropólogo Bruce Albert a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (ccpy) em 1978. Durante 13 anos a ccpy travou uma batalha incansável pela demarcação contínua da terra indígena, vista como a única maneira de garantir a sobrevivência dos Yanomami e seu ecossistema. Contra forças econômicas poderosas, finalmente, em 1992, a terra foi homologada às vésperas da conferência-geral da onu sobre o clima (Rio-92), num dos mais bem-sucedidos exemplos de luta política.

Plumas de gavião, Hwaia u, afluente do rio Lobo de Almada, afluente do Catrimani, RR, 1976. Foto: © Claudia Andujar.

Durante a campanha, Andujar mobilizou organização nacional e estrangeira, levantou fundos, escreveu manifestos e correu o mundo para denunciar o descalabro. Sua fotografia passou a instrumentalizar a mobilização política. Também desenvolveu programas de saúde e educação, com os quais percorreu toda a extensão da terra indígena.

Em uma de suas séries mais conhecidas, fotografou Yanomami de várias regiões para identificar os cadastros de saúde e vacinação. As fotos numeradas se transformaram na série Marcados, exibidas na 27a Bienal de Arte de São Paulo e no exterior. A exposição apresenta novos conjuntos dessa série, com uma contextualização sobre os lugares onde os retratos foram feitos.

Esses retratos numerados evocam momentos sombrios da história do século xx, como o Holocausto, associado à trajetória da própria artista. “Criamos uma nova identidade para eles, sem dúvida, um sistema alheio a sua cultura. São as circunstâncias desse trabalho que pretendo mostrar por meio destas imagens feitas na época. Não se trata de justificar a marca colocada em seu peito, mas de explicitar que ela se refere a um terreno sensível, ambíguo, que pode suscitar constrangimento e dor”, afirma a fotógrafa.

Outro destaque é uma nova versão da instalação Genocídio do Yanomami: morte do Brasil (1989/ 2018), manifesto audiovisual em 16 telas, criado em defesa dos Yanomami. A instalação foi exibida pela primeira vez em 1989 como reação aos decretos assinados pelo presidente da República, José Sarney, que demarcavam a terra indígena em 19 “ilhas” isoladas. Feita com fotos do arquivo de Andujar refotografadas com luzes e filtros, a projeção conduz o espectador por um mundo em harmonia, paulatinamente destruído pelo progresso da civilização branca. A compositora Marlui Miranda criou a trilha, que combina música instrumental americana, japonesa e cantos Yanomami. A instalação apresenta uma retrospectiva do trabalho de Andujar, incluindo fotos tiradas entre 1972 e 1984.

Antônio Korihana thëri sob o efeito do alucinógeno yãkoana, Catrimani, RR, 1972-1976. Foto: © Claudia Andujar.

A mostra reúne também livros, documentos e um mapa detalhado do terra indígena Yanomami no Brasil. Em cartaz até 7 de abril de 2019, a exposição retoma a trajetória da ativista e sua luta constante pela proteção de povos que, ainda hoje, permanecem em risco. Uma das maiores artistas vivas, Andujar rompeu os limites entre arte e política para não abrir mão de seu compromisso ético com a vida. “Estou ligada ao índio, à terra, à luta primária. Tudo isso me comove profundamente. Tudo parece essencial. Talvez sempre procurei a resposta à razão da vida nessa essencialidade. E fui levada para lá, na mata amazônica, por isso. Foi instintivo. À procura de me encontrar”, afirma a artista.

Na abertura da exposição, será lançado um catálogo retrospectivo com mais de 300 imagens e textos do curador, de Andujar e do antropólogo Bruce Albert, que se aliou a ela na luta pelos Yanomami.

A mostra Claudia Andujar – A luta Yanomami será exibida no IMS Rio, a partir de julho de 2019. Esta exposição dá sequência à pesquisa realizada para a mostra Claudia Andujar, no lugar do outro (IMS Rio, 2015), também com curadoria de Thyago Nogueira, que apresentou a primeira parte da carreira da fotógrafa.

Catrimani, RR, 1974. Foto: © Claudia Andujar.

Sobre a artista
Claudia Andujar nasceu na Suíça, em 1931, e em seguida mudou-se para Oradea, na fronteira entre a Romênia e a Hungria, onde vivia sua família paterna, de origem judaica. Em 1944, com a perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, fugiu com a mãe para a Suíça, e depois emigrou para os Estados Unidos, onde foi morar com um tio. Em Nova York, desenvolveu interesse pela pintura e trabalhou como guia na sede da ONU. Em 1955, veio ao Brasil para reencontrar a mãe, e decidiu estabelecer-se no país, onde deu início à carreira de fotógrafa. Sem falar português, Andujar transformou a fotografia em instrumento de trabalho e de contato com o país. Ao longo das décadas seguintes, percorreu o Brasil e colaborou com revistas nacionais e internacionais, como Life, Aperture, Look, Cláudia, Quatro Rodas e Setenta. A partir de 1966, começou a trabalhar como freelancer para a revista Realidade. Recebeu bolsa da Fundação Guggenheim (1971 e 1977) e participou de inúmeras exposições no Brasil e no exterior, com destaque para a 27a Bienal de São Paulo e para a exposição "Yanomami", na Fundação Cartier de Arte Contemporânea (Paris, 2002). Este ano, a artista foi contemplada com a medalha Goethe, de 2018, concedida pelo governo alemão.

Os Yanomami podem incendiar malocas quando migram, querem livrar-se de uma praga, ou quando um líder importante morre. Filme infravermelho, Catrimani, RR, 1976. Foto: © Claudia Andujar.

Serviço
Exposição: "Claudia Andujar – A luta Yanomami", individual com curadoria de Thyago Nogueira.
Datas e horários: Em cartaz entre os dias 15 de dezembro e 7 de abril de 2019. De terça a domingo e feriados (exceto segunda), das 10h às 20h. Nas quintas, até as 22h.
Local: IMS Paulista (Galerias 2 e 3) | Avenida Paulista, 2424 - São Paulo.
Entrada livre e gratuita.

Conversa de abertura, com Claudia Andujar, Thyago Nogueira e Davi Kopenawa
Data e horário: dia 15 de dezembro, às 11h.
Local: IMS Paulista - Cineteatro do IMS Paulista.
Entrada gratuita, com distribuição de senhas 1 hora antes e limite de 1 senha por pessoa

Pajelança com Davi Kopenawa, Pedrinho Yanomami e Levi Malamahi Alaopeteri Yanomami
data e horário: dia 16 de dezembro, às 11h.
Local: IMS Paulista - Galeria 3.
Entrada gratuita, sujeita a lotação, com lugares limitados.