AGENDA DAS ARTES

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As descobertas de Jiří Kolář: colagem e experimentação

Artistas: Jiří Kolář

Curadoria: Jiří Machalický

De 15/2 a 2/4

Instituto Tomie Ohtake Ver mapa

Endereço: Avenida Brigadeiro Faria Lima, 201 - Pinheiros - São Paulo - SP CEP 01451-001

Telefone: (11) 2245-1900

Um dos representativos nomes da arte do século XX, oriundo da Europa Central, Jiří Kolář, (Protivín, 1914 – Praga, 2002) ganha a primeira exposição individual no Brasil. O artista tcheco, que também se notabilizou como poeta, escritor e tradutor, foi um dos premiados da 10ª Bienal de São Paulo (1969), conhecida como “Bienal do Boicote”. Kolář esteve ainda, ao lado do alemão Joseph Beuys e dos brasileiros Hélio Oiticica, Lygia Clark, Cildo Meireles, entre outros, na coletiva Além dos Preconceitos a experiência dos anos sessenta, que aconteceu no Paço Imperial RJ e no MAM SP (2001/2002).

As cerca de 70 obras reunidas nesta mostra com curadoria de Jiří Machalický são provenientes do Museu Kampa - Coleção Jan e Meda Mládek, em Praga. Segundo o curador, são trabalhos concebidos no período mais importante da produção de Kolář, ou seja, anterior à sua emigração de Praga para Berlim e depois para Paris. Ainda para Machalický, essa foi a época fundamental na formação das convicções do artista, momento em que deixava a poesia escrita para substituí-la pela expressão visual, na qual usava abordagens semelhantes às da criação literária.


Jiří Kolář. Astonished Venus, 1969. Rollage, 42X60

O artista começou a se dedicar à colagem nos anos 1930, quando fez uma exposição com trabalhos atrelados à visualidade surrealista, no Teatro D 37, local que E.F. Burian disponibilizava para jovens artistas progressistas. Mais tarde, junto ao Grupo 42, que reunia pintores, fotógrafos, poetas e teóricos tchecos, Kolář afastou-se das artes plásticas, dedicando-se progressivamente à poesia, expressão pela qual foi tão admirado pelos outros membros do grupo.

Segundo o curador, os anos 1940 foram decisivos para o artista, momento em que passou a colecionar materiais que representavam sua relação com a cidade, com a história e com as descobertas na ciência e na tecnologia. Tal repertório apontava a sua extraordinária abertura para apreender o mundo em toda a sua diversidade e, ao mesmo tempo, retomava sua expressão nas artes plásticas. “Kolář aplicava em suas composições alguns princípios literários como, por exemplo, a sobreposição livre dos temas, o ritmo da composição das palavras e frases, a versologia, etc.”, explica o curador.

Nas suas séries de confrontage e reportage, técnicas que lhe permitiram captar o ritmo da poesia visual, o artista utilizava tanto reproduções de revistas, a maioria em preto e branco, quanto xilogravuras, projetando relações em que o espectador pode analisá-las à sua maneira. Já em suas collages encontradas, Jiří Kolář elevou a composição, originalmente concebida apenas como uma ilustração para revista, ao status de obra de arte por meio da alteração da narrativa das imagens, introduzindo-as em diferentes possibilidades históricas. Depois de anos de experimentação, no final dos 1950 e início dos 1960, descobriu seus procedimentos principais, nos quais a palavra se transforma em instrumento artístico e compositivo, assim como os acontecimentos políticos internacionais tornam-se temas recorrentes. Um desses procedimentos foi a froissage, que deforma os temas originais das imagens por meio do ato de amassar (xilogravuras, reproduções, mapas, etc.), assim, pode-se percebê-las em proporções novas, de pontos de vista pouco comuns. A rollage, outra de suas técnicas importantes, consistia em cortar reproduções de imagem em faixas ou quadrados e as recolocar em novas composições de acordo com regras preestabelecidas. Nessas, ao misturar épocas, fundia mundos supostamente incompatíveis.


Jiří Kolář_apple_1965_collage object_33X22

Na prollage, Kolář também misturava diferentes universos e criava conjuntos inteiros de um tema específico. Um desses motivos eram talheres. Recortou formas de colheres, garfos e facas, colou, por exemplo, uma imagem do pintor Piero Dorazio por baixo e chamou a prollage de Talheres Italianos. Por baixo da silhueta de uma vaca, colocou o motivo da imagem do pintor americano Marc Tobey e a intitulou A vaca que comeu T. No grande conjunto de prollages, Ornitologia, utilizou um processo semelhante ao colocar por baixo das silhuetas das aves as imagens de pintores conhecidos como Andy Warhol, Roy Lichtenstein e  Jackson Pollock.

Enquanto a stratifie– método de colar papéis coloridos e cortá-los com bisturi, formando imagens aproximadas do informalismo europeu – foi utilizada pelo artista por pouco tempo, a técnica de chiasmage, com as novas possibilidades de escrita, foi fundamental na evolução da sua obra. Trata-se de rasgar ou cortar pedaços das páginas de livros antigos ou novos, impressos em vários idiomas e diferentes fontes, com outros materiais como manuscritos, partituras, mapas históricos ou astronômicos, tecidos ou símbolos de peças de xadrez - e os mesclava criando padrões e texturas, fazendo com que o texto não tivesse mais sentido semântico original e esse conjunto se tornasse uma nova composição figurativa.

Já em suas collages clássicas, Kolář valeu-se de referências literária e visual. Realizou também as chamadas anticollages, recurso em que retirava da composição seu elemento fundamental, como, por exemplo, no autorretrato de Henri Rousseau, que se encontra na Galeria Nacional em Praga. A série de objetos de collage dos anos 1960 e 1970, também se destacam, assim como os banners que, combinando tecido e diferentes técnicas de collage, refletem o olhar irônico de uma arte engajada e tornaram-se seu protesto contra o regime totalitário.

A obra de Jiří Kolář foi apreciada, desde a primeira metade dos anos 1960, em países como França, Alemanha, Itália e Estados Unidos, onde foram organizadas exposições em instituições prestigiadas e editadas grandes monografias. Na Tchecoslováquia totalitária havia silêncio, sobretudo depois de Kolář se ter tornado signatário da Carta 77 e ter emigrado do país, não havia exposições, tampouco era possível adquirir obras para coleções oficiais. Tanto seus trabalhos quanto os de outros artistas – tchecos e estrangeiros – que o próprio Kolář possuía, foram apreendidos pelo Estado após sua saída forçada da Tchecoslováquia e entregues à Galeria Nacional em Praga. Apenas depois da queda do regime comunista, no final da sua vida, foi reconhecido e admirado em seu próprio país. Os museus e galerias tchecos e eslovacos competiam, nos anos 1990, para a organização de exposições sobre seu trabalho. Dois anos antes de seu falecimento, foi apresentada uma grande retrospectiva na Galeria Nacional em Praga (1999-2000), acompanhada por uma monografia representativa com textos de Josef Hlaváček, Jan Rous e Jiří Machalický.

O Museu Kampa emprestou a coleção de Jiří Kolář a muitos países do mundo, como à Alemanha, Polônia, Rússia e Finlândia, onde foram organizadas importantes retrospectivas. Desta vez, a coleção de Jan e Meda Mládek, que foi transferida para Praga no início dos anos 1990, apresenta-se em São Paulo,

Serviço:
Exposição:  As descobertas de Jiří Kolář: colagem e experimentação
Abertura: 15 de fevereiro, às 20h
Até 02 de abril de 2017.=
De terça a domingo, das 11h às 20h – entrada franca